12 de dezembro de 2017

Não me deixe irritada. Não me pergunte “mas e a vida social/amigos”?

É como se eu tivesse uma certa obrigação em cumprir essa parte da tabela, presencialmente.

Ressalta o fato de que, como afirma meu mapa astral online gratuito [sic sic sic!], feito ontem em meio a uma conversa divertidíssima, eu tenho muitos conhecidos e poucos amigos. Por outro lado, veja, o famoso (é uma piada interna entre mim e uma pessoa que jamais vai entrar aqui) Marte em Câncer diz que eu preciso “estar perto de pessoas” ou sou boa em lidar com elas, qualquer coisa que o valha. Não sei lidar e não preciso lidar, acredite. Nem com pessoas e nem com o fato de que não sei lidar com elas.

Verdade inconveniente.

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7 de dezembro de 2017

(porque é quase Natal e “at Christmas we must tell the truth”, diz meu filme favorito alusivo à época, que revi ontem. E porque às vezes eu penso com outras palavras, testando a força delas e de sua sonoridade)

I wish I could say louder, with my own voice, that I miss friendship, I miss good talks, good laughs and fearless tears; I miss truth, I miss being understood and I miss warmth. But I don’t intend to be scary. And I don’t intend to be off my feet ever again, just because life has been scary enough to me and I then I promised myself I would be always some steps back.

5 de novembro de 2017

Pra mim a solidão é como um daqueles abismos apavorantes que “chamam” o sujeito. Aquela atração medonha que surge no alto de um prédio, mesclando horror e necessidade de pular.

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Mas verdade seja dita: estou passando metade do feriado doente e sozinha, à exceção de uma criança de dez anos. Não estou achando graça alguma. Indeed.

Um aperto no coração e um nó na garganta… não se admire se você terminar de assistir um filme dos irmãos belgas Jean Pierre e Luc Dardenne desse modo. A característica mais marcante destes cineastas é a habilidade de refletir sobre questões políticas e sociais a partir do indivíduo. Os protagonistas de seus filmes costumeiramente são homens, crianças e mulheres à margem da sociedade. Esteticamente, a dupla é fiel ao estilo que se aproxima do documental, com um registro naturalista, ausência de trilha sonora e a câmera sempre muito próxima dos atores. A Europa deles não é a dos sonhos, mas um continente velho e cansado. Abaixo, as 8 ficções humanistas, que lhes renderam vários prêmios em Cannes, por ordem de preferência da página: 1. A Criança (2005)***** 2. O garoto da bicicleta (2011)***** 3. A Promessa (1996) ***** 4. O Filho (2002)***** 5. Dois dias, uma noite (2014).***** 6. Rosetta (1999)*** 7. O silêncio de Lorna (2008)*** 8. A garota desconhecida (2016)** #doisdiasumanoite #marioncotillard #jeanpierredardenne #lucdardenne

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30 de outubro de 2017

Se existe alguma constância nessa vida instável é a dança grotesca que vivo fazendo entre os extremos de querer ser invisível e esquecível e morrer de tristeza ao me perceber nessa mesma condição. Só pra me sentir ridícula depois. E então querer sumir, me desvincular do mundo, das pessoas e de mim. E assim por diante.

Passos rápidos, constantes, infinitos. Os sapatinhos vermelhos enfeitiçados que fazem a menina dançar até a exaustão.

Já é quase novembro. Alguém me ajuda com esses sapatos, por favor.

11 de outubro de 2017

Vou explicar como a gente se sente merda, sendo mãe e sendo mulher também. Didaticamente e com exemplo.

A criança está difícil, pré-adolescente. Passa a semana apenas com a mãe, às vezes duas semanas. Claro que quando vê o pai – até bem presente, tanto quanto é possível já que se trata de cidade diferente – a vibe é outra. Os horários, a cobrança, compromissos, horário comercial, fica tudo ali com a mãe. A rabugice, a provocação, o mau humor concentrados. A provocação. O desafio. E o inferno do despertador logo cedo, a criança tem sono. A criança não quer levantar, mesmo que durma cedo (rola rigor com relação a isso, não trabalhamos com criança acordada após 22:00). A mãe compreende, posto que também odeia o expediente todo de estar fora da cama, vestida, penteada (há controvérsias) e produtiva (idem) antes mesmo das 7 da matina. Enfim.

Então dois amigos – homens -, ouvindo a mãe dizer que está dureza a parte acordar cedo, comentam, entre goles de cerveja e tragadas de cigarro no balcão da churrasqueira:

– Ih, larga uma semana comigo ou com o Fulaninho pra ver se não aprende.

O Beltrano que vai colocar a criança na linha é um solteirão de 37 anos e mora com a mãe e a avó. O Fulaninho que também parece ser cheio dos predicados educativos mora com a avó centenária – que o sustenta – e tem dois filhos: um adolescente que fica DIAS sem banho e quando não está na escola está em frente a uma tela de celular, tevê ou computador, e uma criança fofa de dois anos de quem ele não cuida no dia-a-dia (as avós e a mãe se encarregam, ele fica apenas no fim de semana).

Todo mundo quer se apropriar da sua maternidade. Não vi ninguém ainda se oferecer pra se apropriar dos meus boletos, você já viu? Da minha louça. Da minha jornada doméstica, que enfrento sozinha porque não tenho dinheiro para empregar nem subempregar alguém (certamente seria outra mulher que, adivinhe, provavelmente teria os mesmos conflitos a respeito de trabalho e maternidade que eu, se não piores). Nunca ouvi dessas pessoas tão gabaritadas “você está cansada, posso levar seu filho ao cinema/pra lanchar com o meu pra você ter umas duas horas de bobeira?” (tenho uma história lastimável a esse respeito mas não vou contar aqui. Claro que no fim quem pagou o pato fomos nós, eu e meu filho). E por aí vai.

Mas vamos fazer justiça, já vi e MUITO esse discurso de “deixa eu cuidar pra ver só se não aprende” sair da boca/dedos de mulheres. Mais ou menos favorecidas, com mais ou menos estrutura, mais ou menos dinheiro, não importa. O filho não é seu. Você teve o seu, os seus. Teve um, dois, oito. Mas não teve todos. Se o filho dos outros não é sua responsabilidade (justo), então feche sua boca e ouça, se não pode estender a mão. Às vezes a pessoa quer apenas desabafar. Falar. Quer apenas NÃO ser julgada ou “ensinada”, o que já é um adianto e tanto.

Pare de usar o problema dos outros como escada pra se gabar. Largue de ser imbecil.

 

 

27 de setembro de 2017

Quando eu era menina e via “Armação Ilimitada” me sentia muito representada pela Zelda Scott. Ela era jornalista (o Chefe era um escroto, mas que criança vai se importar com uma coisa dessas?), tinha óculos e mesmo assim tinha dois namorados garotões, bronzeados, surfistas, aventureiros. Claro, ela era aquele caso de pessoa bonita que não é enfeiada só porque usa óculos, sabe anúncio de ótica ou de armação de óculos? Enfia uma armação na cara duma modelo linda e ela fica uma linda de óculos ao invés de parecer uma corujinha hipermétrope e desajeitada, de pernas finas. Tipo eu aos dez anos.

Então aos dez anos eu já sabia que de saída não reunia os atributos necessários pra atingir o patamar de sucesso representado por “ter um namorado”.

Na mesma época a TV começou a exibir “Roque Santeiro” (não assistir a novela era algo meio alienígena naquela época, coisa pra quem não tivesse televisão em casa ou então tivesse pais rigorosos. Bem, talvez seja alienígena até hoje e em casa nos encaixamos perfeitamente nessa categoria. Não sabemos nem o que tem aparecido em intervalo comercial, nem o nome das novelas). Tinha lá a “boate” da Yoná Magalhães e as meninas da boate, e não entendíamos muito bem o escândalo que aquilo significava na pequena cidade de Asa Branca. Ora, na minha cidade havia boates também mas embora ouvisse comentários sobre o fato de uma prima mais velha ser grande frequentadora delas não lembrava de serem motivo de tanto escarcéu. Ademais, pra que escândalo se as meninas da boate da novela eram tão bonitas e esfuziantes, sempre maquiadas, de cabelões armados, roupas chamativas? Eram os anos 80 e a maquiagem e os turbantes da Viúva Porcina eram referências de beleza pra nós, pirralhas.

Então era comum “brincar de boate”. Acho que não devia ser algo além de maquiagem, uso de acessórios espalhafatosos e dança, não tínhamos mesmo como supor algo além daquilo. Um dia, num aniversário, a brincadeira era inspirada na novela e na boate e não houve Cristo que convencesse minhas amiguinhas a me deixarem ser “menina da boate”. Nem mesmo a Mocinha, linda, loira e virtuosa:

-Você vai ser a Lulu das Medalhas.

Puta que pariu, a Lulu das Medalhas. O mesmo cabelo liso, escorrido e castanho que eu tinha. Lulu, que era submissa ao marido, a cara da sem-graceza com seu cabelinho lambido e suas roupinhas de mulher honesta. Lulu, a reprimida, a invisível.

O tempo passou e já na adolescência minhas ~amigas~ da escola decidiram que sim, eu ia ter um namorado. Ele seria muito magrelo, branquelo, esquisitão, usar óculos como eu, ter espinhas e os braços compridos de tanto carregar pilhas de livros.

Quando ouço alguém falar “ih, agora tudo é bullying, eu passei por isso e sobrevivi” fico com um apertinho no peito. Eu sobrevivi, claro, mas poderia ter passado bem melhor sem aqueles tempos de sujeição à maldade infantil e adolescente. Não sei qual dos vaticínios se cumpriu, se algum deles se cumpriu em alguma medida quando deixei aquela vida e aquela cidade pra trás.

25 de setembro de 2017

Anos atrás, antes do Facebook e da possibilidade de localização rápida de “gente do passado” (irrrc), o Fantástico colocou no ar um quadro em que pessoas reencontravam pessoas com quem haviam perdido contato. Melodrama, etc. Nem sei quanto durou. Não lembro o nome do quadro.

Se não me engano o primeiro domingo mostrou uma professora que queria encontrar ex-alunos que ela deixou pra trás quando largou o emprego e foi embora da cidade. Ela mostrou fotos, deu informações a respeito das crianças, localizaram o pessoal e promoveu-se o encontro.

A professora, muito sensibilizada, se arrependia amargamente de ter ido embora e largado aquelas crianças pra trás. Chorou. Aqueles meninos e meninas provavelmente eram pra ela símbolo de tempos muito mais felizes. As crianças…bem, as crianças cresceram. Era uma professora, uma dentre várias que elas tiveram ao longo dos anos. Grande disparidade de emoções. Lembro de alguém que assistia ao quadro comigo (não lembro quem era também, esse post é um grande relato de esquecimento parcial, o que em última instância condena também sua credibilidade, se formos pensar bem) dizer “coitada dessa mulher, ela ficou aí por anos sofrendo, as crianças nem lembravam dela“.

Vou poupar vocês da minha conclusão moral-da-história de mesa de boteco.

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Tenho comprado daquele iogurte de laranja, cenoura e mel só porque me faz lembrar da minha avó abrindo um copinho, colocando dentro dele a colher e o colocando na mesa, pra a seguir avisar meu avô: “Aqui, José, come“. O véinho não precisava nem pegar a colher na gaveta, era só sentar na frente do iogurte e comer. Mas ele mesmo fazia o próprio prato,  o mar de feijão no prato fundo, meticulosamente amassado, com a ilhota de arroz. Que era depois misturado e acrescido da verdura ou legume refogado presente à mesa. Quando ele acabava de amassar o arroz com o feijão todo mundo já tinha acabado de comer.

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Ontem fiz uma corrida de 10 km. Fazia quase 1 ano que não participava de prova de rua, fazia 4 meses que não corria essa distância. Fazia meses que meus treinos estavam irregulares. Porque a minha motivação e disposição estão mais irregulares que nunca. Decidi na véspera, literalmente. Não estava preparada, são os 10 km mais tradicionais (a prova acontece há 27 anos) e mais casca-grossa da cidade. Calor e secura, aquelas subidas horrorosas, fiz o tempo médio por km igual ao que venho fazendo em treinos mais curtos, o que foi bom. Precisei caminhar em subidas muito íngremes. Quis desistir na pior delas (mas depois lembrei que há seis anos em toda, absolutamente toda, prova que passa por ela eu me pergunto sobre a viabilidade de largar o osso ali mesmo e ir comer um brunch em algum lugar). Uma amiga foi junto. Me impediu de desistir. Corria mais adiante e depois voltava pra me acompanhar (o treino dela era de 17 km no dia). Um casal que se alternava comigo no último lugar diminuiu o passo para que chegássemos todos juntos. Corrida com gente legal tem disso, né? Não corrida com papa-léguas pedante (been there). É só uma corrida, amigos, grandes merda o minuto a mais ou a menos. Chegamos com as motos atrás, fomos aplaudidos, tipo “nuoooossa, chegaram, superação”, o barulho das sirenes das porras das motos. Detestei. Superação o caralho, já fiz essa prova e cheguei 20 minutos mais cedo porque era outra época e eu era outra pessoa. Só fui correr sem treinar especificamente, num momento específico da minha vida de atleta furreca. Só uma corrida, não tem nada pra ver aqui, podem todos ir tratar dos seus afazeres. Preferia chegar com a pista completamente vazia.

Mas enfim, fui lá e corri a bagaça da prova difícil. Nunca demorei tanto pra correr essa distância, nem machucada.

Também não há conclusão moral. Só isso mesmo.

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Ano passado decidi também de última hora fazer uma prova em São Paulo, no Centro Histórico da cidade (é em agosto e recomendo muito). Eram 9 km, mas meu treino total acho que era de 15 km (eu faria uma meia maratona dali a um mês). Decidi completar a prova, guardar o chip, pegar a medalha, beber um gole d’água e começar de novo pelo portal de largada/chegada. Iria mais 3 km pelo circuito da prova e voltaria pelo mesmo lugar, a subida da Líbero Badaró se não me engano. Duas chegadas, a da prova e do treino.

Numa das últimas esquinas, já no fim do treino, havia duas moças, que me viram passar e gritaram palavras de incentivo, em tom sarcástico e dando risadas. Eu já estava quase fechando 15 km ou mais e as duas me tomaram por alguma retardatária lenta, chegando quando já não havia nem cronômetro ligado. Também foi uma prova depois de uma temporada sem grandes vontades de correr. Fiquei muito emocionada voltando no metrô com a medalha no colo.

Ontem só fiquei aliviada por poder voltar pra casa.