15 de setembro de 2018

“AAff, tá numa bad hein?”

E daí que estou, meu amigo? Eu não estou aqui pra ser agradável, pro seu deleite. Pra te dar notícias bacanas ou dizer coisas espirituosas. Quando eu te digo que estou só uma casca calcinada, com todo o resto morto dentro, eu não quero sua opinião.

Aliás. A opinião. Quem pediu a opinião dessa gente toda? O que houve com o ditado das avós sobre uma boca e duas orelhas pra ouvirmos mais e falarmos menos, mandamos tudo pras picas porque digitamos e temos dez dedos (contra duas orelhas ou dois olhos apenas)? Pois eu não quero saber o que você pensa quando eu digo que estou pendurada por um fio de teia. Quando digo que não, não vou sair, ver gente, conhecer ninguém, ouvir música, ficar bêbada, transar num banheiro de bar, yomar chá de cipó, me animar, encontrar Jesus, Ganesha ou meditar, eu só quero funcionar minimamente no modo de segurança pra cuidar de quem depende de mim. Foda-se se tem gente “em situação pior”. Foda-se, na boa. Não tenho nada com isso. Assim como ninguém tem nada com essa coisa em que minha vida se transformou, essa paródia que eu sou. Embusteira, desnecessária. Não queriam me provar isso? Ok, está feito. Então que fique so quem respeitar meu silêncio. Quem me olhar sem julgar. Eu estou cansada demais.

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8 de agosto de 2018

Tem uns negócios muito difíceis. A gente se autocongratula por ter passado por tanta coisa, olha pra trás, puxa aquela capivara enorme e vê que passou por tanta coisa. “Aprendi muito”. Opa, parabéns.

A gente se compara com nossa versão de um quarto de século (amo essa expressão, dá uma dimensão dramática de “oh, quanto tempo já se passou”) e percebe que se jogava melhor em algumas coisas. Que saía ladeira abaixo com a bicicleta sem freio e boa. Se cair, caiu.

Daí, anos depois, percebe que toda beirada de ladeira dá medo. Como não dava antes? Era porque você não tinha se estabacado, arrancado tampo de dedo, fatiado joelho, bambeado dente em tombo. Então você nem desce mais a bosta da pirambeira. E dói do mesmo jeito.

Medo é aprendido. Quem me ensinou caprichou bastante.

É bem verdade, a gente não esquece essas parada de bicicleta mesmo.

 

30 de julho de 2018

A noite, povoada por todos os pesadelos que eu não queria ter, uma síntese de assuntos desconfortáveis do dia e de fantasmas e memórias que preferia deixar na gaveta mais emperrada possível, foi curta e dolorosa. Era como se eu precisasse checar a situação da dor de estômago a cada hora. E doía.

Acordei dez minutos antes do despertador, amarga, a pele em volta dos olhos com aquela sensação de que houve ali lágrimas que secaram – sal na pele.

Depois do banho escolhi a roupa que parecia mais fácil e prometia mais conforto. Um dos vestidos que minha mãe deixou de lado e me entregou, em uma pilha, semanas atrás. Ela alegava “não é que não servem em mim; não servem pra mim. ficam ridículos agora”.

Minha avó tinha um kimono azul curtinho, dado por alguma das irmãs que moravam em São Paulo. Eu vivia encantada por aquele mundo mágico que parecia existir naquela cidade enorme, onde havia gente de outros países, onde havia japoneses “de verdade” e todo um universo misterioso e interminável de “coisas de japoneses”. Bonecas, chinelos, roupas, comidas, jornais, eventos. Então muito, muito tempo depois vi minha avó separando o kimono simples de algodão pra tirar do armário. Pedi pra ficar com ele, trouxe pra casa e ele está lá. Mas é tão diferente, ter o kimono da minha avó que era mais uma peça icônica do que um objeto de uso corrente, identificador da pessoa. Os vestidos da minha mãe têm a cara dela. Há fotos em que ela usa alguns deles.

Então só quando cheguei aqui eu me dei conta de que eu já uso, então, roupas que minha mãe usava há relativamente pouco tempo, que eu me lembro de ver em seu corpo, em ocasiões das quais me lembro perfeitamente. As roupas que ainda não ficam “ridículas” em mim. Como disse a Suzana ontem, esqueci a janela da cozinha aberta e o tempo escapou.

 

18 de junho de 2018

Havia um trem e era engraçado, os vagões pareciam armários, estantes. Meu filho estava em um vagão, eu deveria embarcar. Ou já havia embarcado e desci por algum motivo. Mas no fim das contas o trem saía pelos trilhos e eu precisava alcançá-lo, não conseguia. O trem parava, eu chegava perto com muito sacrifício porque minhas pernas doíam demais, pesavam, era difícil correr. Mas daí o trem voltava a andar. Num momento havia outra pessoa comigo. Uma mulher. Ela conseguia subir no trem em movimento, mas eu não. E eu gritava, xingava o motorista/maquinista. Gritava pra parar. Dizia que meu filho estava embarcado sozinho e eu precisava ficar com ele. Minhas pernas doíam. Eu me abaixava, levantava, pesava uma tonelada.

Acordei com as pernas doendo e com a sensação de que é isso aí. O trem como metáfora sobre a vida. Não vou jamais alcançar algum vagão ou ter coragem pra pular. Quem está lá dentro não vai se preocupar em me ajudar a subir.

Acordei cansada e doída.

4 de abril de 2018 (um exercício de escrita)

Numa madrugada uma ideia a princípio promissora foi para o papel. Papel mesmo, com tinta azul.

Numa tarde desocupada as linhas se condensaram em caracteres digitais. O primeiro rascunho parecia pueril, brega e sem substância. Prolixo (e pro lixo também ha ha ha). Perdido em drama e sentimentalismo, em detalhes desnecessários.

Esta é a segunda forma do que seria (será?) um conto, ainda sem título. Percebo nele alguma inspiração inconsciente de Medianeras, sobretudo no que diz respeito ao papel do acaso e de um certo tom não propriamente fatalista, mas acomodado, quase de resignação. Seria esse o retrato do verdadeiro conto-de-fadas contemporâneo?

Não sei se gosto. Talvez o texto funcione melhor como uma espécie de piada interna. Mas palpites são bem-vindos.

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Ninguém entendeu quando começaram a chegar pelo correio os envelopes contendo cartões bonitos, de trabalho gráfico escolhido a dedo, elegante e moderno. A interrogação se estampava e se acentuava no rosto de cada leitor conforme a leitura avançava e a compreensão se instalava.

Em termos informais, o casal participava à família e aos amigos próximos sua união, ocorrida um mês atrás na mais absoluta surdina em um cartório da cidade, tendo como testemunhas (apurou-se depois) funcionários do local. Completos estranhos.

Em um texto quase descontraído comunicava-se a mudança para litoral. Mala e cuia. Seria um prazer receber a visita das pessoas queridas.

Houve discussão a respeito, na verdade. Em toda família existe uma persona non grata. Como informar sem convidar? E se um cartãozinho fosse incluído em alguns envelopes apenas? Não, que indelicado. Será que os indesejados compreenderiam que a participação e o convite eram apenas um tipo de obrigação social? Talvez tivesse sido mais fácil promover uma cerimônia convencional e contratar uma pessoa para ficar encarregada de absolutamente tudo, conhecendo em linhas gerais o desejo dos noivos. Melhor ainda, talvez fosse melhor simplesmente sair de cena sem aviso.

Noivos. Que termo estranho. Tradicionalismo não era o forte de ninguém ali, ambos já escolados depois de graus diferentes de formalidade e burocracia: casamentos, divórcios, separações consensuais, guardas de menores e pensões, a quota de vida comum já estava vivida. A instituição havia sido testada e desaprovada.

Teria sido possível calcular com um cronômetro o tempo decorrido da postagem dos cartões até o primeiro toque de cada um dos telefones. Alguns se sentiram traídos, outros apostaram em alguma pegadinha, muito ao gosto dos recém-casados, quase todos incrédulos.

A casa gentilmente colocada à disposição dos não-convidados para a cerimônia civil era espaçosa, com entrada no final de uma rua um pouco escondida. Do portão não se adivinhava que ela se debruçava sobre o mar – decisão conjunta e unânime. Da parede de vidro da sala só era possível enxergar céu e mar. Dos dois quartos principais, um andar acima, não se avistava qualquer sinal de terra e era como se estivessem flutuando, suspensos.

Talvez fosse exatamente essa ideia que norteava aquela vida peculiar em comum. A suspensão literal e metafórica: dos laços tradicionais, da fé em instituições e conceitos que o cansaço dos anos havia tornado obsoletos e pouco críveis.

Foram precisos poucos dias, algum dinheiro, cinco minutos de fila e seis dezenas certas em um pedaço de papel impresso.

Nenhuma promessa. Nenhuma pergunta. Portão adentro, janelas abertas, à frente ar, água e sal. Suspensos, viveram.

4 de abril de 2018

Tenho o hábito de reler o que escrevo. Gosto de tentar me enxergar como a autora daquelas palavras, recuperar o momento em que escrevi, pensar sobre o que sentia na ocasião. Reler para me reconhecer. Às vezes não funciona, para o bem ou mal – dependendo da situação gosto de ver que já não sou (ou pelo menos naquele momento) aquela autora.

Precisando tanto de boas notícias, de abraço, de afago e acolhimento, voltei no tempo e acabo de me dar conta de que tive alguns desejos atendidos. Não faço preces – ao menos não da forma tradicional, me dirigindo a alguma entidade ou força – mas expresso vontades. Algumas delas dependem de mim e a mim cabe fazer algo para que se realizem. Outras não. E acho que foi o caso (ou não, se formos descontar minha autodesvalorização).

Seja qual for o nome que se dá a algo assim, fiquei feliz e sorri, reconfortada.