4 de abril de 2018 (um exercício de escrita)

Numa madrugada uma ideia a princípio promissora foi para o papel. Papel mesmo, com tinta azul.

Numa tarde desocupada as linhas se condensaram em caracteres digitais. O primeiro rascunho parecia pueril, brega e sem substância. Prolixo (e pro lixo também ha ha ha). Perdido em drama e sentimentalismo, em detalhes desnecessários.

Esta é a segunda forma do que seria (será?) um conto, ainda sem título. Percebo nele alguma inspiração inconsciente de Medianeras, sobretudo no que diz respeito ao papel do acaso e de um certo tom não propriamente fatalista, mas acomodado, quase de resignação. Seria esse o retrato do verdadeiro conto-de-fadas contemporâneo?

Não sei se gosto. Talvez o texto funcione melhor como uma espécie de piada interna. Mas palpites são bem-vindos.

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Ninguém entendeu quando começaram a chegar pelo correio os envelopes contendo cartões bonitos, de trabalho gráfico escolhido a dedo, elegante e moderno. A interrogação se estampava e se acentuava no rosto de cada leitor conforme a leitura avançava e a compreensão se instalava.

Em termos informais, o casal participava à família e aos amigos próximos sua união, ocorrida um mês atrás na mais absoluta surdina em um cartório da cidade, tendo como testemunhas (apurou-se depois) funcionários do local. Completos estranhos.

Em um texto quase descontraído comunicava-se a mudança para litoral. Mala e cuia. Seria um prazer receber a visita das pessoas queridas.

Houve discussão a respeito, na verdade. Em toda família existe uma persona non grata. Como informar sem convidar? E se um cartãozinho fosse incluído em alguns envelopes apenas? Não, que indelicado. Será que os indesejados compreenderiam que a participação e o convite eram apenas um tipo de obrigação social? Talvez tivesse sido mais fácil promover uma cerimônia convencional e contratar uma pessoa para ficar encarregada de absolutamente tudo, conhecendo em linhas gerais o desejo dos noivos. Melhor ainda, talvez fosse melhor simplesmente sair de cena sem aviso.

Noivos. Que termo estranho. Tradicionalismo não era o forte de ninguém ali, ambos já escolados depois de graus diferentes de formalidade e burocracia: casamentos, divórcios, separações consensuais, guardas de menores e pensões, a quota de vida comum já estava vivida. A instituição havia sido testada e desaprovada.

Teria sido possível calcular com um cronômetro o tempo decorrido da postagem dos cartões até o primeiro toque de cada um dos telefones. Alguns se sentiram traídos, outros apostaram em alguma pegadinha, muito ao gosto dos recém-casados, quase todos incrédulos.

A casa gentilmente colocada à disposição dos não-convidados para a cerimônia civil era espaçosa, com entrada no final de uma rua um pouco escondida. Do portão não se adivinhava que ela se debruçava sobre o mar – decisão conjunta e unânime. Da parede de vidro da sala só era possível enxergar céu e mar. Dos dois quartos principais, um andar acima, não se avistava qualquer sinal de terra e era como se estivessem flutuando, suspensos.

Talvez fosse exatamente essa ideia que norteava aquela vida peculiar em comum. A suspensão literal e metafórica: dos laços tradicionais, da fé em instituições e conceitos que o cansaço dos anos havia tornado obsoletos e pouco críveis.

Foram precisos poucos dias, algum dinheiro, cinco minutos de fila e seis dezenas certas em um pedaço de papel impresso.

Nenhuma promessa. Nenhuma pergunta. Portão adentro, janelas abertas, à frente ar, água e sal. Suspensos, viveram.

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4 de abril de 2018

Tenho o hábito de reler o que escrevo. Gosto de tentar me enxergar como a autora daquelas palavras, recuperar o momento em que escrevi, pensar sobre o que sentia na ocasião. Reler para me reconhecer. Às vezes não funciona, para o bem ou mal – dependendo da situação gosto de ver que já não sou (ou pelo menos naquele momento) aquela autora.

Precisando tanto de boas notícias, de abraço, de afago e acolhimento, voltei no tempo e acabo de me dar conta de que tive alguns desejos atendidos. Não faço preces – ao menos não da forma tradicional, me dirigindo a alguma entidade ou força – mas expresso vontades. Algumas delas dependem de mim e a mim cabe fazer algo para que se realizem. Outras não. E acho que foi o caso (ou não, se formos descontar minha autodesvalorização).

Seja qual for o nome que se dá a algo assim, fiquei feliz e sorri, reconfortada.

2 de abril de 2018

Talvez hoje eu consiga ser mais precisa e explique melhor o que eu vivo de tempos em tempos àqueles que nunca passearam pelos campos da instabilidade emocional patológica – no meu caso conhecida como transtorno afetivo bipolar & ansiedade & pânico.

Na véspera de um feriado você está no topo do mundo; sente-se bem consigo mesma, com suas escolhas, sua cabeça, seu corpo e sua voz. Seus movimentos são seguros e suas palavras são precisas. Você tem poder, sobretudo sobre si. Você dá passos firmes. Você vê perspectiva.

36 horas depois gatilhos mínimos ajudam a rachar aquela fortaleza de muros espessos, do alto da qual você tinha visão ampla. Pedras rolam montanha abaixo, trincas sob seus pés aparecem e se aprofundam. Você corre em busca de local mais seguro e fica em silêncio, temendo até mesmo que buscar ajuda te condene mais, te revele como alguém fraca, e comprometa quem se aproxima. E você não quer repelir, afastar. Você precisa, no fim das contas, de uma mão segurando a sua. Mas você permanece imóvel. Amedrontada.

No terceiro dia o ruido das pedras descendo te apavora. O vento também. Os tremores se intensificam debaixo dos pés. Mas o silêncio…ah, esse pode ser aquele que precede o desabamento maior. O que vai te carregar e soterrar. Você não pode se mover. Não consegue gritar. Não consegue virar a cabeça para tentar enxergar o que está em volta. O menor som te desespera, o silêncio é aterrador – porque faz o pior parecer possível e próximo. E a única coisa que você pensa é que a única solução seria não estar ali. Justamente seu maior temor. Não estar, não ser. Quem não está e não é não sente medo.

Em três dias você deixa de ser senhora de seu castelo e a fortaleza propriamente dita e se transmuta apenas no pedacinho de pedra que vai ser esfarelado por todo o peso daquelas toneladas que vão ruir sem deixar pistas do que havia ali horas antes.

25 de março de 2018

Tantos tempos verbais cabíveis e intercambiáveis. Uma ariana metida a durona. Lágrimas com sorrisos, notas musicais sem pretensão de afinação, um mundo todo de mesas, cadeiras, garrafas & copos, pessoas desaparecendo em volta por três minutos como numa cena de filme. Um leitmotiv.

Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho
Tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado
Está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário
E se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne
Passou na novela, está no seguro, picharam no muro
Mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário
E se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos OVNIs, no Pravda, na Vodca

 

20 de março de 2018

Acho que não suprimi nenhuma daquelas postagens do dia 20 de março do ano passado. Apenas deixei de voltar a elas, com o tempo, pra não reviver aquilo tudo.

Ontem me perguntei o que me tornei neste ano que passou. E hoje me pergunto também o que você se tornou. O que sua escolha te trouxe? Será que você chegou a questioná-la? É só curiosidade silenciosa e estéril, é mais uma pergunta retórica. Não me importa mesmo. Assim como nesse ano não me preocupei em te desejar mal, em dizer “a vida ensina” ou “o mundo dá voltas”, aquele discurso nascido da dor e do despeito, da rejeição.

Mas você me fez mais forte, de alguma forma. Passar pela situação que você me impôs me fortaleceu e solidificou, cristalizou muita coisa dentro de mim. “Emparedou” talvez fosse o verbo correto.

Tudo acontecer na véspera do meu aniversário foi mais uma coincidência, podia ter sido em qualquer dia. Mas eu tenho um histórico com vésperas de aniversário – quem sabe eu não morro num 20 de março, considerando-se neste caso a premissa (com a qual eu não concordo) “morrer é a pior coisa que pode acontecer a alguém”? É um dia como qualquer outro. É a mesma probabilidade, acho. Mas o valor simbólico, ah, esse é inegável.

Ontem voltei a ouvir uma música que você disse que adorou quando te mostrei. Levou quase um ano. Ela finalmente está vazia de qualquer outro significado, é apenas uma música que me agrada, e que cantei a plenos pulmões durante o banho.

Ainda sinto medo de passar de novo por aquelas sensações ruins – como um ano atrás sentia medo inconscientemente, sem saber que estava pra acontecer de novo. O mesmo pavor que me assaltou e me parou uma semana atrás após um sonho muito ruim. Outro 20 de março, outra vez o coração martelando o peito, o ar faltando. Outra vez o chão desaparecendo, outra vez a dor física. Só que agora sei me proteger. Agora sei a que e a quem recorrer.

Mas você me obrigou a ser melhor, sem saber. Você me forçou a ver a mim mesma e ao mundo com olhos mais duros e ao mesmo tempo mais generosos, por incrível que pareça. Se você também se fortaleceu, depois de deixar em mim a pior impressão possível, não sei dizer. Mas hoje, 20 de março, te agradeço pelo presente.

19 de março de 2018

Eu prometi que ia viver de uma forma mais simples. Mas pra chegar a essa simplicidade almejada eu preciso desconstruir um monte de padrões e condutas que perduraram por todo esse tempo. Então não sei se estou fazendo algo complicado pra simplificar.

É isso mesmo? Quando eu vou saber que cheguei lá?

 

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O que existe em um ano? Quem eu me tornei depois desses dias todos?

15 de março de 2018

Angustiada, fechava os olhos ou então os desconectava do que estivesse no entorno e imaginava a lâmina fendendo a pele uma, duas, três vezes nos braços. Nunca pensava na dor em si, mas na possibilidade da sangria tranquilizadora, que tiraria tudo o mais de perspectiva; o sangue temperado pela tristeza, pelo medo, pela ansiedade, escorrendo, pingando, levando tudo embora.

Aprendeu a escrever – o sangue transmutado no que seria, literal ou metaforicamente, a tinta da caneta, fixa no papel e fora de seu corpo, fora de sua mente.

Sangue, tinta, pensamentos.

Não funcionou. Em seus devaneios as vozes não silenciavam, agora o som da ponta da caneta ou das teclas se somava à balbúrdia de pensamentos, as linhas se sobrepunham ruidosamente. E o líquido correndo braço afora passou a ser vermelho, preto, azul, verde, roxo.