7 de agosto de 2017

Lados B me interessam e muito. Dos outros, o meu. Não pelo que há de potencialmente diferente neles (lembram do meme da “diferentona”? Nada disso), mas pelo que se pressupõe subversão de um modus operandi/modus vivendi, pela sutileza e pelo que eles trazem de inesperado. A surpresa, o pouco usual. O inimaginável.

2017 é o ano do meu lado B. Tudo o que nunca pensei que faria. Que pensaria. O aleatório e o surpreendente no comando, ditando das coxias o ritmo da música que se dança no palco. Eu quase não me reconheço, faço reapresentações diárias na frente do espelho. “Oi, eu sou você. Eu também sou você. Esta também é sua vida”.

 

(que post malfeito e incompleto)

 

 

 

3 de agosto de 2017

Deixa eu te lembrar disso lá de abril:

Vou pintar o cabelo de azul novamente. (o psiquatra levanta uma sobrancelha só, olhando com cara de “hm, que mais?”)

Vou voltar a gravar no sábado meu finado programa de rádio online. Fazia um ano.

Vou voltar pra piscina (seria hoje, mas é em local novo, não sei qual a dinâmica nos vestiários e nem quão difícil é o trânsito pra voltar pro trabalho, e não posso me arriscar a atrasar em dia de dar aula). Pra poder fazer um aquathlon em agosto.

Tive também um lindo reencontro com uma playlist cheia de músicas que têm em comum o fato de me levarem de volta pros anos 90/2000. Eu não vou mesmo crescer. E honestamente, quero que se dane.

 

  • O cabelo deu errado. Ficou verde. Então passei vermelho por cima e ficou bonito. Mas eu nunca mais ia passar vermelho. (aparentemente o corvo que gritava “nunca mais!” foi abatido, depenado e assado, comido com purê de maçãs. Ou seja lá com o que se coma corvo – aliás, come-se corvo?)
  • Gravei duas edições do programa. Uma foi ao ar. Outra está sem edição porque eu fiquei com preguiça de passar o setlist. E o editor ficou com preguiça de ouvir a gravação e incluir as músicas por conta própria.
  • Eu não voltei à piscina e não vou voltar. Eu sequer voltei a correr direito. Sequer tenho vontade de correr. Aquela meia maratona pode acontecer, mas só pra eu me gabar novamente.
  • A playlist continua ótima, obrigada.

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A encrenca trabalhista se resolveu da melhor forma que eu poderia desejar.

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Um telefonema no início de uma noite de quinta-feira (opa, pode se enquadrar em #tbt?) soou como um gongo estridente que vai continuar ecoando pro resto da minha vida. Não como uma sentença, mas como uma lembrança eterna de que nada está sob controle, de que a vida é curta, de que o imponderável (vocês não vão me ouvir falar maktub, podem esquecer, já disse que acho horrorosa essa ideia) comanda. Então parei de pensar em “o que podia ter sido” pra me concentrar exclusivamente em “o que é/o que está sendo”.

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Continuo sonhando que vou à escola, que tenho prazos pra entregar trabalhos. Que no meio da coisa toda caio em mim e largo tudo pra trás.

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Na verdade já cansei de cair em mim, podemos passar praquela cena da pílula azul?

26 de junho de 2017

Sagitário

– Eu tenho a impressão de que você tira sarro da minha cara o tempo todo. 

– Ah, você se leva a sério demais.

O centauro ousado dispara flechas, o carneiro marrento ignora. Mas se um tem cascos e não tem medo de usá-los, o outro tem cabeça bem dura.

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Foram duas semanas difíceis. Movimento, datas, horários.

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Só ontem me dei conta de que quem mais gosta de usar a carta “você se leva a sério demais” são aquelas pessoas que têm pouco respeito pelos sentimentos alheios. As que se acham superiores em alguma medida.

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Assim como o dinheiro, o coração não aguenta muito desaforo e uma hora simplesmente para. Cansa.

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Depois de uma noite de angústia acordei metamorfoseada numa criatura que parou de ter medo do que pode acontecer. O que pode, não necessariamente o que vai, entendeu? É uma questão trabalhista. As consequências podem ir do “nada acontece feijoada” à demissão e volta ao ponto de partida. E olha, tudo bem. O que sempre soou como sinal de derrota não tem mais essa cara feia pra mim. O que perco? Um emprego. Mas não pra ficar desguarnecida. Vou ter outro, praonde for. Não vou ganhar tanto? Não vou. Mas sabe? Entro às 8 e saio às 20 enquanto eu estiver sem filho em casa, porque preciso pagar as horas das pontes dos feriados. Metade do meu dia em função do trabalho. E então, como já nos ensinou o pai do Kevin Arnold, “trabalho é trabalho”. Será que eu descobri isso tarde demais? Pra que eu vou tentar ganhar mais, pra poder pagar uma pessoa pra ficar limpando minha casa e cuidando do meu filho enquanto eu fico mais tempo no trabalho pra ganhar mais?

Enfim. Cês entenderam. Eu acho que não vou ter medo de quebrar esse ciclo não. A vida é sopro. Gente é pra brilhar, não é pra ficar botando dedo em máquina de ponto.

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13 de junho de 2017

Nunca fui muito boa no fino esporte de ler Borges, algo que comecei a fazer bem depois de ver em algum lugar um volume de O livro dos seres imaginários (“uau, compilações de coisas imaginárias me encantam“). Fui abri-lo apenas anos depois, quando inclusive ouvi uma colega citar Funes, o memorioso em uma aula do mestrado.

Um dia descobri que acadêmicos de Biblioteconomia gostam imensamente de A biblioteca de Babel. Consternada, percebi também que naquele ambiente o conto era mote pra uma série de platitudes falando sobre a produção incessante de conhecimento, a importância da biblioteca, dos livros, da leiturzzzzz… Na verdade eu viera de outra experiência universitária, mais metida a besta e mais exigente em termos teóricos/intelectuais. Eu me achava. E não me conformava com a dificuldade das pessoas em cavar mais, remexer mais a terra fértil borgiana. Mas quem disse que eu mesma consigo fazer isso direito? Esnobe.

Corta pro caixa do supermercado num início de noite. Frio. Barulho. Música do Roberto Carlos tocando.

Eu olho pras minhas compras e penso em um jeito de organizá-las na esteira. A única tentativa ficou esquisita. Deixei como estava: o frio, o barulho, o horário, os pratos de comida dos bichos esperando pra serem repostos lá em casa.

Nas remotas páginas do “Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos” – antiga enciclopédia Chinesa cujo modesto propósito é de encaixar todas as coisas do universo em categorias – é curioso observar, entre outras preciosidades, a seção dedicada à classificação dos animais. As categorias às quais eles podem pertencer são as seguintes:

a) pertencentes ao Imperador;
b) embalsamados;
c) amestrados;
d) leitões;
e) sereias;
f) fabulosos;
g) cães soltos;
h) incluídos nesta classificação;
i) que se agitam como loucos;
j) inumeráveis;
k) desenhados com um finíssimo pincel de pêlo de camelo;
l) etcétera;
m) que acabam de quebrar o vaso;
n) que, de longe, parecem moscas.   

(Trecho do conto O idioma analítico de John Wilkins)

 

12 de junho de 2017

Primeiro minha mãe tentava nos convencer a fazer um passeio de barco por um córrego que atravessa a cidade. Ele teve, ao longo dos anos, seu leito alargado e as margens concretadas, pra dar conta das enchentes (não resolveu lá grandes coisas dependendo do trecho. Alaga horrores em temporada de chuva). Eu insistia que não tinha cabimento, ela estava louca de botar os pés naquela água pra subir ou descer do barco, a pele e os ossos iam se dissolver, será que ela não sentia o cheiro de coisa podre? E ela falava de algum lugar onde estavam fazendo um jogo de adivinhação, em que a gente ouvia características de algum personagem (histórico, de filme, de animação…) e tinha que dizer de quem se falava. Daí a gente acertava e ganhava prêmios. Acho que entrei no raio do barco e fiquei treinando.

Tenho quase certeza de que isso aconteceu porque quando eu já estava deitada, amontoada, um amigo ligou pedindo dicas de filmes pra ver com a não-namorada hoje. As sugestões foram de Indiana Jones a Era uma vez na América.

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Ontem eu parei pra ver os aviões no céu.

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Depois era uma invasão a alguma cidadela ou castelo. Quem estava de dentro tratava de instalar vários portões de madeira grossos. De repente eles foram estourados e uma procissão de animais imensos entrou correndo deixando só lascas de madeira pra trás. “Não acredito que são rinocerontes! Não, espera, são dinossauros!” Eram coloridos, parecidos com Triceratops (qual é o plural, triceratops mesmo?)

Provavelmente esse sonho foi culpa do sono com televisão ligada em um dos filmes daquela série péssima dos Transformers. Nunca mais durmo de TV ligada. (dormi dois dias seguidos assim)

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Por fim, a escola. Atrasada pra chegar à aula, passava por várias crianças que me estranhavam e perguntavam minha idade. Eu explicava que já tinha feito faculdade e havia voltado. Precisava andar mais rápido mas estava quase paralisada da cintura pra baixo, as pernas e pés duros, doendo muito. Lembrava que não estávamos tendo aula de matemática, não havia professor, e como faríamos depois? Como a escola podia simplesmente deixar pra trás esses conteúdos? Será que eu ia precisar de aula particular depois? Mas ficava aliviada, que beleza não precisar assistir àquelas aulas.

Encontrava no caminho minha mãe, dando aula também, e mostrava pra ela que um dos meus dentes da frente estava mole. Completamente móvel, quase se desencaixando, saía do lugar, como se fosse uma aba levantada, mas eu colocava de volta na posição pensando em como fazer se ele caísse, como ia ficar aquele buraco bem na frente da boca? E pra fazer um implante, o quanto ia ter que gastar agora?

Chegava enfim à aula, no pátio coberto. Educação Física. Os alunos tinham que fazer uma performance musical, o professor me recomendou procurar meu padrinho (que é dentista, é meu dentista desde sempre) e me deu uma lista de possibilidades. Eu não conhecia qualquer uma delas, mas sabia que a maioria me exporia a um ridículo gigantesco perante os colegas (todos também de volta depois de saírem de seus respectivos cursos de graduação e pós graduação). “Professor, eu já passei dos 40, olha pra mim. Não posso dançar isso vestida desse jeito“.

Eu pensava então em propor uma recriação do clipe de um classicão dos anos 80. Eu sabia cantar a música, os colegas podiam jogar papelzinho picado pra dar um ar meio etéreo (essa era a explicação que eu dava ao professor) e podiam segurar e movimentar no ar objetos presos em fios de nylon, pra parecer que estavam voando perto de mim. Não sei se o professor topou porque acordei e lembrei que na oitava série minha turma produziu um telejornal inteirinho, com notícias, apresentadores, reportagens, cenografia, até comerciais.  A escola contratou um sujeito pra filmar e editar tudo (nada como poder econômico) mas participamos até desse processo. Foi legal.

(era esse o videoclipe que eu queria recriar. eu realmente sei cantar a música inteirinha)

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Foi tudo na mesma noite mas não estou cansada. Só estou com frio e ansiosa porque a semana vai ser movimentada e difícil.

6 de junho de 2017

 

Acho que você está procurando se apaixonar. Está querendo se apaixonar“, ele disse, alegando que leu entrelinhas.

Eu disse que não. É casca de ferida demais ou então pele fininha, qualquer coisa sangra, dói e fica roxo, depois esverdeado, depois amarelo.

Mas revejo meu histórico de músicas tocadas, lembro da conversa com a amiga sobre aquela fase do vestidão floral com keds, a foto 3×4 que foi passando de uma carteirinha de biblioteca pra outra ao longo de vários anos, a memória vívida de quais eram os rostos que me interessavam, de quais guitarristas de banda me encantavam, e posso quase responder que talvez esteja tentando me apaixonar pelo que eu prometia ser vinte anos atrás. Que não era pra ser o que eu sou.

Mau negócio, de qualquer forma.

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Aniversário do meu pai. Em uma semana, do meu filho e da minha avó materna.

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1996. Vestidos floridos, keds, canetas coloridas e bilhetes escritos em verso de textos xerocados da faculdade. Frio permanente na barriga.

“I may be lying in the gutter but I’m staring at the stars” – e não parece o Neil Patrick Harris no início do vídeo?

5 de junho de 2017

Voltei à cidade onde meu filho nasceu. Uma espécie de Canaã em 2005, quando levei minha mudança pra lá, e em 2017 também: um plano B, uma possibilidade engavetada. Não se sabe o que vai acontecer com a Universidade nos próximos tempos e até o desmonte do meu campus pode ser posto em pauta – daí o plano B, já pensou se me deixam escolher praonde posso ser transferida? Pois bem, que seja pra Terra das Possibilidades.

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Os prédios, a cidade ao fundo (a gargalhada é livre), a viga suspensa. Ou algo assim.

Mas voltei fisicamente, por um dia, há pouco mais de um ano; em sonho, na noite de sábado pra domingo. Foi uma experiência dolorosíssima porque a cidade perfeita se afogou num mar de impossibilidades e estagnação. Voltei a morar no mesmo lugar onde meu filho viveu seus primeiros três meses, e a vista da cidade era a mesma. Porém, aparelhos climatizadores ficavam pendurados na ponta de vigas suspensas, então cada extremidade ficava próxima a um apartamento de um prédio diferente. Eu me perguntava quem pagava por aquilo.

O apartamento era o mesmo, sala, cozinha pequena em uma espécie de corredor que terminava na área de serviço, dois quartos, banheiros. Doze anos atrás morei sozinha naquele lugar, no ano seguinte ganhei um companheiro e mais dois gatos, um ano e meio depois mais um gato e um filho. Todos amontoados ali enquanto a casa não ficava pronta, ela que aparentemente era também a solução de todos nossos problemas naquele momento.

Noite retrasada, porém, eu chorava copiosamente, porque voltar à cidade não resolveu qualquer coisa. Eu continuava sabendo percorrer as ruas mas a sensação de familiaridade que me deixou feliz e saudosa em maio do ano passado me angustiava porque eu estava presa naquele lugar, não tinha o que fazer, não encontrava onde ir, não tinha trabalho, estava longe dos meus amigos e havia também retomado o relacionamento que existia naquela época e que terminou exatos dois anos atrás. Desespero completo, como fui parar ali? Com aquela pessoa? Não posso voltar atrás, por que não? O que fiz com a minha vida?

Quando acordei entendi, então, que pensar em plano B é mera ilusão de controle. Nada está sob controle.

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Nesta noite viajávamos para o Japão, eu e minha família, e em um jantar tocavam música portuguesa. Meu avô materno se levantava e começava a dançar, seguido por minha avó. “Gente, vai devagar, vocês vão passar mal com essa pulação, vão cair!”. Meu avô terminava de dançar e voltava a seu lugar sorrindo.

Nada, nada está sob controle.