18 de maio de 2017

Com a instalação de um relógio de ponto na Universidade, estamos vivendo dias interessantíssimos. Antes a possibilidade franca e aberta de burlar o sistema, apenas relatando horário por escrito e assinando uma folha de ponto. Agora está tudo organizadinho. Tudo certinho.

Agora as pessoas ficam PARADAS em frente ao relógio esperando dar os minutos exatos para colocar o dedo no sensor e registrar a saída ou entrada. Agora as pessoas fazem contas estapafúrdias pra calcular compensação de horas e minutos de atraso ou de pontes de feriados. Agora a gente liga no RH e não consegue orientação porque o sistema ficou tão cheio de meandros e senões e regras e normas e nem mesmo quem deveria saber algo tem a coisa toda clara.

E quem burlava continuou burlando. Alguém esperava algo diferente? Só que o restante do corpo técnico-administrativo torra miolos e faz malabarismos. Se aporrinha. Posso vir pagar minhas horas de pontes de feriado aos sábados? Não, parece que não pode porque no sábado a hora conta dobrado. Mas como assim? Ih, não sei. É verdade que se eu tiver dois minutos pra pagar o relógio não vai contar a mais esses dois quando eu vier, porque esses dois entram no limite de tolerância de 10 minutos? É sim, então você fica DOZE a mais e dá certo. Mas eu fiquei dois a menos e contou. Ih, não sei.

Fica o gado todo mugindo e brigando enquanto as engrenagens do matadouro funcionam a pleno vapor. Cada um é só um número, uma entrada na base de dados com seus atributos, não um floquinho de neve especial, brilhante, eterno.

Se eu falar em submissão ao Deus Relógio tem gente aqui que vai me chamar de esquerdalha comuna e vai me mandar pra Cuba. Tem dia que dá vontade mesmo de ir.

_______

Acho que abrir o Museu ontem afrouxou parafusos do meu subconsciente e então sonhei com duas cidades.

Em uma metrópole chuvosa em que era sempre noite as ruas se enchiam d’água e eu precisava entregar coisas que havia escrito pra algum magnata de imprensa, que era jovem, absurdamente rico e gostava muito de mim – talvez num arroubo de rebeldia. Comemorava o fato de que textos meus haviam sido publicados em jornais grandes e eu havia sido regiamente paga, com um bolinho de dinheiro que protegia com aflição dos ladrões na rua. Minha mãe entrava em uma loja comigo e me convencia de que um short roxo brilhante ficava bem em mim – e o duro é que ficava. Então eu comprava o short, ridiculamente barato.

Em uma cidade litorânea, em férias com meu filho, eu procurava um determinado quarteirão de um endereço que sabia de cor, procurava o que deveria ser o prédio correto, mas não havia números nas construções. E então procurava sinais de uma pessoa em sacadas, nos parquinhos infantis em volta, procurava um determinado carro, um Marea vermelho. E no sonho era o carro correto (só agora me toquei de que não, não era esse o carro na realidade). Dava voltas nos quarteirões, olhava pessoas pela rua, pelos bancos e quiosques da praia. Então no meio do sonho também me toquei de que o lugar da vida real não é um prédio e nem fica à beira-mar. Mas continuei sonhando. As ondas imensas se formavam, eu mostrava pro meu filho, telefonava pra pessoas e contava o tamanho dos vagalhões, comentava com quem estava em volta. Quando as ondas quebravam a água subia e atingia a todos até um quarteirão depois. Então eu vi, de relance, quem procurava ver. Fiquei em um impasse entre querer ser vista e não, entre querer continuar vendo e não. Lembro da roupa. Então essa pessoa desapareceu e eu continuei procurando pra descobrir onde ela estaria agora. E num determinado momento avisava ao meu filho que era hora de recolher os brinquedos, tomar banho e ir embora.

______

Chris Cornell, 52 anos.

Anúncios

Autor: godzillaverde

Sou um monstro.

2 comentários em “18 de maio de 2017”

    1. Mulher do céu. E aquele fogaréu todo??? o.O

      Fui dormir destruída ontem. “Carregada”, diz o pessoal das vibes. Acordei com gostinho de derrota na boca, criança estourou minha paciência logo cedo. Contagem regressiva pra final de semana de sono, apenas. O resto é perfumaria.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s