11 de outubro de 2017

Vou explicar como a gente se sente merda, sendo mãe e sendo mulher também. Didaticamente e com exemplo.

A criança está difícil, pré-adolescente. Passa a semana apenas com a mãe, às vezes duas semanas. Claro que quando vê o pai – até bem presente, tanto quanto é possível já que se trata de cidade diferente – a vibe é outra. Os horários, a cobrança, compromissos, horário comercial, fica tudo ali com a mãe. A rabugice, a provocação, o mau humor concentrados. A provocação. O desafio. E o inferno do despertador logo cedo, a criança tem sono. A criança não quer levantar, mesmo que durma cedo (rola rigor com relação a isso, não trabalhamos com criança acordada após 22:00). A mãe compreende, posto que também odeia o expediente todo de estar fora da cama, vestida, penteada (há controvérsias) e produtiva (idem) antes mesmo das 7 da matina. Enfim.

Então dois amigos – homens -, ouvindo a mãe dizer que está dureza a parte acordar cedo, comentam, entre goles de cerveja e tragadas de cigarro no balcão da churrasqueira:

– Ih, larga uma semana comigo ou com o Fulaninho pra ver se não aprende.

O Beltrano que vai colocar a criança na linha é um solteirão de 37 anos e mora com a mãe e a avó. O Fulaninho que também parece ser cheio dos predicados educativos mora com a avó centenária – que o sustenta – e tem dois filhos: um adolescente que fica DIAS sem banho e quando não está na escola está em frente a uma tela de celular, tevê ou computador, e uma criança fofa de dois anos de quem ele não cuida no dia-a-dia (as avós e a mãe se encarregam, ele fica apenas no fim de semana).

Todo mundo quer se apropriar da sua maternidade. Não vi ninguém ainda se oferecer pra se apropriar dos meus boletos, você já viu? Da minha louça. Da minha jornada doméstica, que enfrento sozinha porque não tenho dinheiro para empregar nem subempregar alguém (certamente seria outra mulher que, adivinhe, provavelmente teria os mesmos conflitos a respeito de trabalho e maternidade que eu, se não piores). Nunca ouvi dessas pessoas tão gabaritadas “você está cansada, posso levar seu filho ao cinema/pra lanchar com o meu pra você ter umas duas horas de bobeira?” (tenho uma história lastimável a esse respeito mas não vou contar aqui. Claro que no fim quem pagou o pato fomos nós, eu e meu filho). E por aí vai.

Mas vamos fazer justiça, já vi e MUITO esse discurso de “deixa eu cuidar pra ver só se não aprende” sair da boca/dedos de mulheres. Mais ou menos favorecidas, com mais ou menos estrutura, mais ou menos dinheiro, não importa. O filho não é seu. Você teve o seu, os seus. Teve um, dois, oito. Mas não teve todos. Se o filho dos outros não é sua responsabilidade (justo), então feche sua boca e ouça, se não pode estender a mão. Às vezes a pessoa quer apenas desabafar. Falar. Quer apenas NÃO ser julgada ou “ensinada”, o que já é um adianto e tanto.

Pare de usar o problema dos outros como escada pra se gabar. Largue de ser imbecil.

 

 

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Autor: godzillaverde

Sou um monstro.

2 comentários em “11 de outubro de 2017”

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