5 de abril de 2017

Mas voltando então àquela questão da “mulher forte” e da “mulher de biscuit” de outro dia:

era tão mais negócio ter sido sempre a mulher modelo boneca de porcelana. A das revistas e anuários das senhoras dos anos 40/50, a dependente, a frágil, a que deixa o homem tomar a dianteira. “Será que essas sofrem menos, porque não vêm acompanhadas do pressuposto ‘são frágeis e delicadas, então temos que cuidar delas, não vamos sobrecarregá-las’ e são mais poupadas?”, penso eu, esgotada e desgostosa.

Então, em primeiro lugar, é como se eu depreciasse a mulher supostamente mais frágil ou dependente. Ou mesmo atribuísse a ela alguma malandragem, como se ela usasse essa fragilidade pra obter alguma vantagem, pra se poupar, pra ganhar atenção. Manobra bem ao gosto das mentes dos coleguinhas machistas, “quero ver ser feminista na hora de descarregar caminhão de tijolo”. Uai, traz o caminhão, amigão. Porque se precisar a gente descarrega sim. Todas nós. Mas que vergonha eu pensar assim. Que grande vantagens tinham as mulheres confinadas ao estereótipo de frágeis, hm? Pois é.

Então, em segundo lugar, imagina que horror esse pressuposto de fragilidade, as pessoas te tratando como pessoa incapaz, com “ela não vai aguentar”, “é muito pra ela”. Ser subestimada. Tutelada. E sabemos que com isso vem o “cerceada”.

Nossas meninas não precisam disso, independente de seu temperamento. O que devemos a elas é sempre o contrário, o incentivo pra que sejam fortes, independentes, pra que se sintam e se reconheçam assim. Temos mais é que mostrar os dentes por aí e ensinar que com a gente não se brinca.

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Eu sou uma adulta muito da fajuta, pra ser sincera.

Outro dia escrevi um e-mail gigante, em que fazia analogia dos pensamentos soltos e descontrolados voando pela cabeça (imaginem o crânio como um grande sótão escuro) como as chaves voadoras mais ao final de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Francamente, que tipo de pessoa adulta falando de coisa séria se utiliza de uma imagem dessa?

etereo
BOO!

Então hoje pensava que, numa temporada muito difícil, em que todo sono do mundo não basta pra que eu fuja da vida real e me isole, eu já sei quando acordo e minha cabeça e minha disposição já estão contaminadas. É como se uma língua como a do Venom ou tentáculos como os que saem da boca dos etéreos dos livros da Miss Peregrine fossem se alongando e tomando conta dos meus pensamentos.

Um passo pra frente, três passos pra trás, estou cansada.  One day more, one more day. Não sei se tudo isso diz mais sobre mim ou sobre os outros. Mas sinceramente preferia agora torpor à lucidez.

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É tolice, eu sei, você não sente os meus passos

Mas eu imagino, mas eu imagino.

A droga é essa. Imaginar. Cenas, cartas. Escrevo cartas, espero respostas (mesmo que diga que não quero), vejo imagens e situações. Devia, mas não desligo. Era melhor, mas não consigo. Racionalizo mas em cinco minutos já esqueci de tudo e me contradigo. Refaço passos. Quero uma viagem no tempo e no espaço. Quero parar de pensar, de sentir dor. De não suportar, de não me suportar, quero parar de me odiar por tudo.

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4 de abril de 2017

A perversidade daquele negócio de “foco” é gigantesca. Não que o que vou dizer seja estranho à maioria das mulheres que eu conheço, mas ontem botei o dedo no relógio de ponto depois de 8h de expediente (com uma pausa ao meio-dia, em que busquei criança pra almoçar, fui ao banco), fui ao supermercado, voltei, alimentei gatos e cachorro, lavei roupa, pendurei, organizei roupa limpa e seca pra guardar, guardei, guardei o mar de sapatos (meus!) que se espalhava por quarto e banheiro, varri casa, servi janta pra criança, limpei chão da cozinha com pano. Jantei. Tomei banho. Coloquei pijama. 21:30 estava pronta pra dormir. Criança de banho tomado e jantada também indo pra cama, com uma pausa no meu quarto pra ver uns vídeos de música e conversar.

Semana passada não saí pra correr. Só treino de rugby domingo. Ontem não saí pra correr. Na verdade não tenho tido vontade alguma de fazer isso, o buraco tá sendo mais embaixo pra mim e mal vejo a hora dessa tempestade toda passar. Jantei pão com presunto e queijo, leite com nescau.

Gente pra dizer que “falta foco” e “falta vontade” existe por aí às legiões. “Se você quer você arruma tempo”. “Tem que ter foco, precisa se cuidar“. E o que existe por trás desse se cuidar, o quanto de elitismo existe por trás disso, sabendo que o termo normalmente se refere a fazer exercício físico, descansar, delegar tarefas, cuidar do corpo, da mente, da alimentação? Eu me cuidei ontem: trabalhei (porque não vivo de brisa e nem de mesada ou herança, infelizmente), almocei, jantei, tomei banho e fui dormir cedo. Tá bom isso, não? Não é foco o suficiente? E pra quem é menos privilegiada que eu, tem menos conforto e menos salvaguarda financeira, familiar, psicológica e profissional que eu, você tem coragem de virar e dizer “você precisa ter foco”? Eu não.

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Ele sabia cantar essa música inteira quando era pequenininho. E hoje, no carro, enquanto ela tocava (e eu cantava, caprichando no R arrastado, porque senão não vale), me veio com um “é tipo Frodo em Mordor, né mãe? Tá lá no meio, pensando em voltar pro Condado onde tudo é feliz e tranquilo”.

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Sonhei com cobras, MUITAS cobras, se escondendo em montes de folhas, em touceiras de grama alta, cobras de todas as cores, peçonhentas com mordidas doloridas e constritoras, com chocalhos na cauda.

 

3 de abril de 2017

Vocês não fazem ideia do que aconteceu: dormi e não lembro do que sonhei. Achei ótimo.

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O menino desenvolveu um gosto ~que nem sei de onde veio, claaaaro~ por garimpar informações sobre filmes, sabe aquela cultura de almanaque? Então. Não sei de onde veio. Mas ele armazena uma quantidade impressionante de informação totalmente inútil, se formos olhar de um ponto de vista totalmente utilitarista, que eu detesto aliás.

Ontem começou falando de Framboesa de Ouro, perguntou que filmes nunca foram indicados pra Oscar e podiam ter ganho algo e foi cair nas animações do Studio Ghibli. A favorita dele até agora é A viagem de Chihiro e ele ficou maravilhado de ver que foi a única animação do Hayao Miyazaki a ganhar um Oscar, de melhor animação em 2003. Conversamos até tarde sobre o filme.

Mais uma vez acordou minha obsessão com mundos e realidades paralelas (por que será, hm?), a associação com todos os que criaram portas secretas, passagens por dentro de árvores, portais, espelhos; guarda-roupas fundos, buracos, estações de metrô esquecidas, cabines telefônicas.

Olho pra trás e desejo que o armário sem-graça atrás de mim pudesse levar a outro lugar, outro momento, outra vida.

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2 de abril de 2017

Ontem me disseram que tenho “cara de rica”. Problematizações à parte, decidi tomar como elogio. Mesmo estando impermeável a eles e escaldada o suficiente pra não crer.

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Eu vivia com minha mãe e precisava chegar (da aula? Trabalho?) em meio a uma chuva absurda, me aprontar e sair pra um ensaio importante de ballet.  A casa ficava nos fundos de uma praça onde  o havia uma igreja sendo reformada, e o barro vermelho sendo que se formava e descia pela praça e pelos degraus dela me lembrou na hora “Crimson Peak” (“A colina escarlate”, o filme). Haviam me escolhido pra dançar e alguém me ensinava como eu devia posicionar o corpo pra ser levantada. Eu explicava que era minha despedida do ballet.

No meu desespero eu não encontrava roupas limpas pra dançar: collants velhos que eu achava que nem me caberiam mais, meias rosas imundas. Uma saia emprestada da minha irmã. No fim não achei as sapatilhas, fui sem e quando cheguei fiquei aliviada ao reparar que outras pessoas estavam descalças e desmazeladas também. O coreógrafo falava em inglês, francês, era muito prolixo. E parecia o Gérard Depardieu.

1 de abril de 2017

 

Primeiro sonhei com perfumes e encantamentos – a influência clara de “As brumas de Avalon” e das merdas desaatradas cometidas por Morgana das Fadas, quase meu duplo literário.

Depois eu me mudava, com meu filho e alguns de nossos pertences, para a casa de alguém. Não ficou claro o propósito. Mas ao cabo de alguns dias fomos mandados embora, inclusive depois que uma das meninas disse que odiava o fato de que eu corria mais que ela. As pessoas todas nessa família do sonho existem na vida real mas sequer se conhecem.

Então fui com meu filho em busca da casa que havíamos deixado, ainda com nossos pertences dentro. Era um condomínio com prédios baixos, duas ruas de mansões (uma delas era do Ozzy Osbourne e já havia aparecido em outro sonho, percebi no mesmo momento). Eu tinha certeza de não ter devolvido o imóvel na imobiliária, por isso minhas coisas estavam lá ainda. Era domingo, chovia, a imobiliária estava fechada e eu não sabia onde ia dormir com meu filho. Outra família visitava a casa mas o pai decretava que a achara “desorganizada” (ahaha era minha casa, indubitavelmente). Foram embora e eu precisava pegar a casa de volta, minhas coisas todas lá. Inventariei as casas em que havia morado, lembrei do dia da mudança e de como havia disposto os móveis primeiro e pensei na trabalheira que ia ser colocar tudo em ordem novamente. Chovia e precisávamos dormir.

 

 

C’mon and kill me baby

Whilst you smile like a friend.

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A energia incrível de ontem tirou uma folga. Vi alguém muito parecido com você na rua, mais alto mas a mesma cor de cabelos, mesmo jeito de colocar os óculos na cabeça. Tênis, mochila, provavelmente vindo devolver algum livro ou estudar. O coração não teria pulado uma batida ou duas se eu já tivesse conseguido parar de pensar em situações fantasiosas que envolvem seu aparecimento na minha frente, repentinamente.

Se eu ao menos parasse. Se eu ao menos me reaprendesse.