27 de março de 2017

Hoje é segunda-feira novamente. Choveu de madrugada. São 8:32 e o campus está barulhento, carros e máquina de cortar grama (parece que nunca param com esse negócio, nem por dois dias).

Ontem pegamos estrada tarde, o medo de voltar e ficar sozinha com meus pensamentos e meus afazeres em conflito com a vontade de me esquecer do resto do mundo. Quase chegando concluí, parafraseando o Verissimo filho*, que se eu passasse mais tempo dirigindo em rodovia, talvez decifrasse os segredos do Universo e o sentido da vida.

Precisei colocar música pra me distrair e quando vi estava explicando ao menino o que era dito em “Creep”, do Radiohead. Ser gente grande é assim, como já disse.

* em Traçando Porto Alegre, compilado de crônicas sobre a cidade, ele diz que se a linha de bonde que ele tomava para voltar da escola fosse mais longa conseguiria chegar à resposta para todas as perguntas da vida. Ou mais ou menos isso.

_________

(BRMC é uma das bandas que eu não tive tempo de recomendar)

 

__________

O que acaba comigo é a praga da boa memória. Cada uma das frases, do começo ao fim.

Estou me cansando de mim mesma. O monotema.

__________

IMG_20170327_151947

Anúncios

24 de março de 2017

Talvez eu seja vista como mãe preguiçosa ou desleixada. Prefiro pensar que na verdade não adianta fazer escândalo. Mas ontem a criança deixou um resto de lição de casa pra fazer à noite. Certo. Acompanhei e chamei atenção quando as reclamações começaram a passar da conta. “Tô com sono e dor de cabeça”. “Duas opções: enfrenta o sono e termina agora ou vai terminar amanhã cedo”. “Amanhã” (sim, esse é meu filho, não tem erro). Beleza, vai dormir.

Hoje cedo uma litania interminável de reclamação. Atraso pra chegar à aula. “O que aprendemos hoje?” “Que não adianta reclamar” “O que mais? De quem é a responsabilidade pela lição de casa, minha ou sua?” “Minha” “De quem é a culpa por esse atraso?” “Minha” “Valeu a pena deixar pra última hora?” “Não”.

Torci pra ele levar o maior dos sabões por chegar atrasado.

____________

Eu precisava levar meus avós a um clube onde minha mãe estaria nos esperando. Coloquei os dois no carro deles (um Doblò, escolhido na vida real porque era espaçoso e cabia a cadeira de rodas do Zé), mas precisava achar um talão de cheques pra pagar o aluguel da casa deles (?). Revirei o raio do carro. Todos os cinquenta mil porta-trecos e vãos. Achei dezenas de lápis e canetas, achei talões de cheques de pessoas desconhecidas. No fim, quando encontrei o correto, precisava da assinatura da minha mãe ou da minha tia. Mas estava escurecendo, havíamos perdido o dia todo e minha mãe ia estar furiosa.

De repente, quem pegou o volante foi um sujeito que conheci ano passado, nas voltas que a vida dá, e de quem me afastei pelo prosaico conjunto de motivos “mentiroso, grosseiro, egoísta”. Ele dirigia mal, errou o caminho, não ouvia minha explicação sobre o caminho e fomos parar em algum tipo de chácara, em que acontecia uma festa (acho que casamento), e ele insistia em passar com o carro sacolejante por lugares onde pessoas estavam transitando.

De repente o lugar se transformou em um lamaçal absurdo. E eu consegui, não sei como, retomar o volante. (lembro a todos que meus avós supostamente estavam no carro ainda)

Contornei uma construção e dei de cara com um leão imenso, alto (em escala maior), um crocodilo de proporções pré-históricas, búfalos (mas menores que o carro, meio anões). Fiquei dando voltas na lama pra escapar dos bichos. Apareceram também orangotangos (um me ofereceu uma banana e ficou meu amigo), uma cheeta, e surgiram cuidadores que começaram a chamar os bichos de volta pra dentro da construção. Os bichos obedeciam, então fiquei livre pra voltar a andar com o carro e tentar sair do lugar. Perguntei ao cuidador que parecia ser o chefe do local o que tinha acontecido com o sujeito cretino que havia nos levado até lá e ele respondeu “ah, os caras deram um jeito, vai ser preciso catar os pedaços daquele lá”.

___________

23 de março de 2017

Eppur si muove.

Esfriou e o menino precisava de agasalhos condizentes com seu tamanho. O cachorro descobriu as almofadas do assento do sofá. A torneira do tanque precisa ser trocada. O retorno ao médico pra ser marcado. O livro novo chega semana que vem e eu devia antes terminar o que estou lendo e devolver pra minha mãe. Continuam chegando as mensagens das pessoas que não conseguem acessar o sistema da revista ou que querem saber quanto é preciso pagar para ter o artigo publicado. Logo a piscina da faculdade vai ser reaberta na hora do almoço e preciso me reorganizar pra nadar, não sei sequer a situação do maiô, dos óculos. O boleto do conselho profissional está atrasado. A sobrinha vai ser batizada domingo. Não posso mais engordar. Temos convites pra amistosos de rugby e eu preciso largar de ser medrosa. Ontem ganhei uma girafa sorridente de pelúcia carregada de amor da irmã e da tia. Meus sapatos vermelhos todos foram pro fundo do armário.

 

_______

Se as pessoas soubessem como acho uma droga esse negócio de “você é tão forte”. “Você é forte” em geral acaba derivando para um “toma aí essa lambada, você é forte e vai aguentar, falou, até mais”. “Forte” “guerreira”: uau, que vantagens.

_______

-Os Miseráveis. Começa com o sujeito lamentando seu destino, a prisão, por ter roubado pão pro sobrinho comer. E o Inspetor vem avacalhar e falar pra ele, que é só um bosta, o 24601, fechar a boca e trabalhar (amei meu resumo).
-Super acho que tinha que ter uma adaptação brasileira desse musical começando com “O Fulano Roubou Pão Na Casa do João”.

-Problema são as ramificações e os subplots. Ia ser trabalhoso parear tudo com Brasil. Mas legal.
-Certeza que deve dar para parear tudo com músicas toscas brasileiras. Acho que deveríamos tentar
-Também acho. E depois pedir por uma verba gorda da Lei Rouanet para implementar esse projeto.
-Exijo ser protagonista.
-Bom, cabelos curtos você já tem, afinal.

-Ou ser a coadjuvante que canta o número mais famoso. Isso. Fantine c’est moi. Posso ser na adaptação um travesti velho. Fantinha.
-E eu exijo poder traduzir todos os nomes da forma mais porca possível. Para começar, “Os Miseráveis” virará “Os Fodidos” ou, se a faixa etária não permitir palavrões, “Os Pé-Rapados”.
-E cantar as agruras de ter sido abandonada por meu namorado de anos, um jogador de futebol promissor, quando ele foi contratado por um time da A1.
-Parece bom. Um ótimo toque de brasilianidade na trama. (As vezes eu penso que é assim que os diretores e dramaturgos começam suas peças.)
-Acho que o protagonista deve começar consertando barcos que andam pelos meandros do Amazonas transportando droga.
-Então ele foge e faz fortuna como pastor evangélico na cidade grande, onde estará nossa heroína-Macabéa Fantinha
-Que precisa usar uma camisa com o logo da Fanta, para ficar mais ridículo.

– Lingerie laranja. Era a favorita do namorado. E é o que sobrou dá abastança. Agora Fantinha se prostitui em beira de rodovia. Acho que pode ficar bom isso
-Certeza que deve ter alguma música brega para combinar com isso. Talvez Reginaldo Rossi, talvez Wando…
-Calypso. Cornice mais moderna
-Não sei se Calypso fala de prostituição.
-Mas fala de traição. Joelma vai pagar pra fazer o tema da personagem
-Se ela continuar tão mordida ainda com a separação, é provável. Essa mulher ficou um tanto louca com essa história, haha.
-A apresentação no Faustão vai ter cenas do musical

 

21 de março de 2017

Acho que ontem consegui definir, numa conversa com a Verô, o que existe de especial no Neil Gaiman: ele trata o leitor como indivíduo inteligente. Ele não supõe, simplesmente, que o sujeito do lado de lá da página (me deixa, eu sou do papel. Desculpa, Neil, eu sei que você transcende o códex e se esparrama por mídias afora) é um parvo que precisa de tudo explicadinho. Ele simplesmente segura pelo pulso e arrasta por aí, nos seus mundos paralelos. Você aceita a viagem ou não.

Aliás, reparou nisso, na quantidade de obras dele que envereda por frestas, por aberturas em cercas, buracos, espelhos e vai desembocar em outro lugar, existindo em outro ritmo, segundo outras regras?

Daí decidi que merecia Mitologia nórdica de presente, ainda na pré-venda. Estão lá os deuses vivendo no seu canto, no seu mundo independente do nosso, e a gente aqui. Os gregos movimentando os mortais no teatrinho, no primeiro Fúria de Titãs. Mas daí vem Deuses Americanos e subverte essa “lógica” gaimaniana, os caras vagam por aí, travestidos de gente ordinária, decadentes, esquecidos.

_______________

 Vc é mulher! Disse que trabalhei em um hospital! Sempre via as esposas levarem os maridos em cadeiras de rodas, macas e muletas. Mas jamais se via um marido carregando a esposa. Mulher é foda. Batalha .⁠

_______________

Existem marcadores da vida adulta, do “ser adulto”. Trabalhar, pagar contas, assinar boletim de escola de filho, ter filho às vezes também é, preparar enterro de parente. Pra mim sempre foi cuidar do meu filho e do filho dos outros junto. Quando a mãe da gente perguntava “vai um adulto responsável junto?” e quando você dá pela coisa o adulto responsável é você.

 

A lista

Depois desta temporada peculiar o amor da minha vida vai aparecer, passar uma noite comigo e, meses depois, iremos a um café (e espero que ele não apareça de bermudas, camisa florida e meia social marrom, porque o amor tem que ser forte demais pra sobreviver a isso) rememorar os bons tempos. Então vou poder contar pra ele sobre minha listinha: “o 8, escroto, transava mal, foi na minha casa e reclamou dos meus pets; o 9, tinha tatuagem no pescoço; o 10 também, mas tinha também nas pernas e tocava o mesmo instrumento que o 9; 0 11, ótimo em fotos e de longe, mas vagabundão e ruim de serviço; o 12, partiu meu coração; o 13, parou na metade alegando cãibras na perna; o 14, me atacou na piscina e depois negou tudo pros amigos e era amigo do 8, mas eu não sabia; o 15, foi maravilhoso, me fez ver estrelinhas e me fez querer sair dessa vida periguete, casar e constituir família; o 16, foi a primeira pessoa pra quem cozinhei na minha casa e dormiu comigo de conchinha; o 17, não tinha nem barba direito e ia em chopada de faculdade …”. ele vai perguntar qual desses era ele, e eu vou responder candidamente que ele era o 15.

Certo, agora achem os erros. Boa sorte.

andiehugh
Por favor, amor da minha vida, apareça bem vestido e com bons dentes e eu não terei essa testa e esse corte de cabelo, prometo