7 de abril de 2017

Era um programa tipo Masterchef *- não, era o próprio, tinha lá o Fogaça, o Jacquin falando “é, ficou bonito, gostoso, parabéns” com o indefectível sotaque (“faltou tômperro”) – e avisavam que teríamos que usar uma faquinha especial de lâmina curva tradicional lá não-sei-onde. Só que daí, gente, quando fui ver era uma tesoura parecida com a que minha mãe usa pra cortar cabo de fruta no pomar, e eu tinha que usar aquele negócio pra cortar o pescoço duma galinha inteira, depenada e resfriada, que me esperava num panelão, com sementes de gergelim por cima (já disse que detesto gergelim?).

Então abriu-se um parênteses em que eu contava que a primeira vez em que tinha visto uma galinha assim fora na casa do cara que eu namorava lá em 1994-1997. Eu morava em Campinas e ele em Porto Alegre (longa história, mas veja, até que funcionou legal por bastante tempo, hm? Eu era doida por aquele cara e de tudo ficou meu amor pela cidade). Um belo dia abri a geladeira da casa onde ele vivia com os pais e irmãos e tinha lá dentro de uma vasilha justamente uma galinha inteirinha, cabeça, pés, o bico, irrrrc. E nunca havia me ocorrido que podiam vender o bicho daquele jeito, e não aos pedaços, mutilada, em saquinhos ou bandejinhas de isopor no supermercado ou no açougue.

Certo. Mas de volta ao programa, de repente começa um número musical com as mulheres do programa cantando uma música da Rita Lee (que engraçado, acho que eu não estava cantando), de surpresa a dita cuja apareceu, uma das meninas teve uma crise histérica de emoção. E depois que acabou o número, pimba, todos pras panelas. Quando vi estava sofrendo pra conseguir cortar o pescoço com a bendita tesourinha. A competidora ao lado já em plena atividade, refogando coisas, um molho pardo fumegante numa panela, tudo muito cheiroso, e eu lá, pelejando. De repente percebi que estava com um pé dentro do panelão (aqueles panelões de alumínio de cozinha industrial) fazendo força e torci pros jurados não perceberem que eu estava com o pé enfiado lá.

Pois bem. Devia ter acordado 6:10, acordei 6:40, no susto, e corri pra tirar criança da cama, que o horário de entrada era 7:10 e hoje era dia de prova de Língua Portuguesa.

* que engraçado, eu nem vejo mais Masterchef. Faz tempo.

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Minha mãe adora essa versão, em que ele fala, faz graça, dá risada. E sorri, os cabelos se mexendo com vento/ar. Faz quinze anos.

Acho que não tive nem tempo de cantar Bowie pra você.

We can be heroes, just for one day. 

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6 de abril de 2017

Gosto muito de me sentir contemplada quando saio de casa pra ver algum filme dito “para a família”. E “para a família” entendo aquele material que não simplesmente me faz rir, mas me trata como indivíduo inteligente. Percebo que os roteiristas, produtores, diretores pensaram em mim (pouco egocêntrica?), na minha diversão, não só na do meu filho.

Já sucumbi umas vezes. Não me perdoei ainda pelos dois “Smurfs”. Nem por “Os pinguins do papai” (que originou minha internacionalmente conhecida escala para classificação de filmes ruins, que vai de zero a “Os pinguins do papai”). Odeio filme que retrata adultos como babacas, acho um desrespeito. Felizmente meu filho já cresceu um tanto e aprendi a ser mais seletiva ou simplesmente delegar algumas bombas para o pai. “Transformers” foi meu último deslize e não se repetirá – um monte de robôs (“não são robôs, mãe, são alienígenas”) se arrebentando e arrebentando Beijing, Hong Kong, Chicago, levantando poeira no Texas, 3h de Michael Bay goela abaixo. Virou piada interna, inclusive: me faz lavar banheiro com uma escovinha de dente, mas não me faz ver filme do Michael Bay, obrigada, de nada.

Daí, voltando, muito me agrada essa esperteza de Hollywood, que tem recheado animações de piadas e referências e trilhas sonoras pra agradar aos adultos – são os donos do dinheiro, oras. Tudo isso pra dizer que o vilão de Meu malvado favorito 3 é um anacronismo ambulante: usa mullets, topete, bigodão, roupa roxa com ombreiras gigantescas, faz moonwalk. Claro que o trailer pode enganar (tenho dezenas de exemplos, e no mais trailer é pra isso mesmo, chamariz). Mas tive um bom pressentimento.

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Houve um tempo em que fiquei com uma crise depressiva amarrada no pescoço. Pensava o dia inteiro que ia morrer. Que ia pegar a estrada pra passar férias em Curitiba e ia bater o carro. Que ia ficar doente. Que ia ter um ataque cardíaco correndo. Pensava o dia todo em morte, apavorada. Comecei a fazer terapia, aquilo estava me paralisando e me deixando maluca, eu olhava as pessoas em volta e pensava “vamos todos morrer, vamos deixar de existir, tudo isso em volta é morte”. Não conseguia comer direito. Não desligava.

Depois de alguns meses estava treinando pra minha primeira meia maratona e comecei a ter tonturas estranhas, taquicardia, a suar frio. Do nada vinha aquela torrente mental, começava aquele desespero, o corpo em surto, a cabeça dizendo “estou tendo um treco, não vai dar tempo de me acudir, vou morrer, não quero morrer”.

Não dava um passo sem monitor cardíaco. Passava o dia em estado de alerta. Fui a montes de médicos. Tomografia. Ultrassons. Exames audiológicos. Cardiologista. Exames de sangue. Eu tinha certeza de que tinha algo físico. Depois aprendi que eram crises de ansiedade e de pânico. E depois disso tudo ainda recebi dois diagnósticos de transtorno bipolar. Comecei a me tratar. Ainda hoje preciso bloquear os pensamentos mórbidos na cabeça e mesmo pra escrever agora não ouso refazer os passos e rememorar exatamente o que pensava, porque tenho medo. Ainda tenho medo.

É um alívio quando consigo organizar na cabeça e depois verbalizar o que sinto, o que me aflige. Ontem tive meu pior dia em muito tempo e consegui entender que estava começando a pegar novamente o caminho pra novas crises desesperadoras.

Saí do trabalho ontem com vontade de correr até gastar o chão. Não corri, fui ao cinema.

Acordei, a despeito do tempo horroroso depois de uma madrugada de chuva coloquei uma roupa colorida (porém sapatos transparentes, isso mesmo: Melissinha de plástico). Fui a uma reunião de escola, dei um abraço apertado na coordenadora, sentei-me aqui e consegui escrever.  Acho que vou conseguir começar a achar meu caminho de volta, se conseguir conter minha cabeça e sentir menos medo.

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Existe com certeza um círculo do inferno pouco propagandeado mas destinado às mães maldosas que sacaneiam seus rebentos, e é pra lá que vou (embora deteste normalmente coletivos maternos tradicionais – se bem que um coletivo de mães trolladoras de crianças provavelmente já sai na frente por conta do senso de humor).

Fomos ver “O poderoso chefinho” ontem. Saímos da sala do cinema e minha primeira pergunta foi, claro, “E aí filhão, o que acha de ter um irmãozinho?“. Pensa numa criança numa saia justa. Deixei a coisa revirar dentro da cabecinha dele uns segundos e lembrei a ele de que, bem, a mãe dele tá solteira, sozinha e com 41 anos (não mencionei “financeiramente ferrada”, achei desnecessário). O reinado dele em casa (já não posso falar em nome do pai) tá garantido.

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She took my heart, left me for dead
And drank my blood, told me she said
Our secrets worth its weight in gold
That fire we had, those two we cold
Cut loose like an animal
Fired out like a cannon ball
But I waited too long
Yeah, I waited too long
Got me high from a holy vein
Crashed down in a hurricane
Love has been here and gone
Love has been here and gone
Where did you go?
Where did you run?
I can’t erase what you’ve done
Let’s burn the past, forget the truth
I’m still more than him, I’m still loving you

5 de abril de 2017

Mas voltando então àquela questão da “mulher forte” e da “mulher de biscuit” de outro dia:

era tão mais negócio ter sido sempre a mulher modelo boneca de porcelana. A das revistas e anuários das senhoras dos anos 40/50, a dependente, a frágil, a que deixa o homem tomar a dianteira. “Será que essas sofrem menos, porque não vêm acompanhadas do pressuposto ‘são frágeis e delicadas, então temos que cuidar delas, não vamos sobrecarregá-las’ e são mais poupadas?”, penso eu, esgotada e desgostosa.

Então, em primeiro lugar, é como se eu depreciasse a mulher supostamente mais frágil ou dependente. Ou mesmo atribuísse a ela alguma malandragem, como se ela usasse essa fragilidade pra obter alguma vantagem, pra se poupar, pra ganhar atenção. Manobra bem ao gosto das mentes dos coleguinhas machistas, “quero ver ser feminista na hora de descarregar caminhão de tijolo”. Uai, traz o caminhão, amigão. Porque se precisar a gente descarrega sim. Todas nós. Mas que vergonha eu pensar assim. Que grande vantagens tinham as mulheres confinadas ao estereótipo de frágeis, hm? Pois é.

Então, em segundo lugar, imagina que horror esse pressuposto de fragilidade, as pessoas te tratando como pessoa incapaz, com “ela não vai aguentar”, “é muito pra ela”. Ser subestimada. Tutelada. E sabemos que com isso vem o “cerceada”.

Nossas meninas não precisam disso, independente de seu temperamento. O que devemos a elas é sempre o contrário, o incentivo pra que sejam fortes, independentes, pra que se sintam e se reconheçam assim. Temos mais é que mostrar os dentes por aí e ensinar que com a gente não se brinca.

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Eu sou uma adulta muito da fajuta, pra ser sincera.

Outro dia escrevi um e-mail gigante, em que fazia analogia dos pensamentos soltos e descontrolados voando pela cabeça (imaginem o crânio como um grande sótão escuro) como as chaves voadoras mais ao final de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Francamente, que tipo de pessoa adulta falando de coisa séria se utiliza de uma imagem dessa?

etereo
BOO!

Então hoje pensava que, numa temporada muito difícil, em que todo sono do mundo não basta pra que eu fuja da vida real e me isole, eu já sei quando acordo e minha cabeça e minha disposição já estão contaminadas. É como se uma língua como a do Venom ou tentáculos como os que saem da boca dos etéreos dos livros da Miss Peregrine fossem se alongando e tomando conta dos meus pensamentos.

Um passo pra frente, três passos pra trás, estou cansada.  One day more, one more day. Não sei se tudo isso diz mais sobre mim ou sobre os outros. Mas sinceramente preferia agora torpor à lucidez.

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É tolice, eu sei, você não sente os meus passos

Mas eu imagino, mas eu imagino.

A droga é essa. Imaginar. Cenas, cartas. Escrevo cartas, espero respostas (mesmo que diga que não quero), vejo imagens e situações. Devia, mas não desligo. Era melhor, mas não consigo. Racionalizo mas em cinco minutos já esqueci de tudo e me contradigo. Refaço passos. Quero uma viagem no tempo e no espaço. Quero parar de pensar, de sentir dor. De não suportar, de não me suportar, quero parar de me odiar por tudo.

4 de abril de 2017

A perversidade daquele negócio de “foco” é gigantesca. Não que o que vou dizer seja estranho à maioria das mulheres que eu conheço, mas ontem botei o dedo no relógio de ponto depois de 8h de expediente (com uma pausa ao meio-dia, em que busquei criança pra almoçar, fui ao banco), fui ao supermercado, voltei, alimentei gatos e cachorro, lavei roupa, pendurei, organizei roupa limpa e seca pra guardar, guardei, guardei o mar de sapatos (meus!) que se espalhava por quarto e banheiro, varri casa, servi janta pra criança, limpei chão da cozinha com pano. Jantei. Tomei banho. Coloquei pijama. 21:30 estava pronta pra dormir. Criança de banho tomado e jantada também indo pra cama, com uma pausa no meu quarto pra ver uns vídeos de música e conversar.

Semana passada não saí pra correr. Só treino de rugby domingo. Ontem não saí pra correr. Na verdade não tenho tido vontade alguma de fazer isso, o buraco tá sendo mais embaixo pra mim e mal vejo a hora dessa tempestade toda passar. Jantei pão com presunto e queijo, leite com nescau.

Gente pra dizer que “falta foco” e “falta vontade” existe por aí às legiões. “Se você quer você arruma tempo”. “Tem que ter foco, precisa se cuidar“. E o que existe por trás desse se cuidar, o quanto de elitismo existe por trás disso, sabendo que o termo normalmente se refere a fazer exercício físico, descansar, delegar tarefas, cuidar do corpo, da mente, da alimentação? Eu me cuidei ontem: trabalhei (porque não vivo de brisa e nem de mesada ou herança, infelizmente), almocei, jantei, tomei banho e fui dormir cedo. Tá bom isso, não? Não é foco o suficiente? E pra quem é menos privilegiada que eu, tem menos conforto e menos salvaguarda financeira, familiar, psicológica e profissional que eu, você tem coragem de virar e dizer “você precisa ter foco”? Eu não.

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Ele sabia cantar essa música inteira quando era pequenininho. E hoje, no carro, enquanto ela tocava (e eu cantava, caprichando no R arrastado, porque senão não vale), me veio com um “é tipo Frodo em Mordor, né mãe? Tá lá no meio, pensando em voltar pro Condado onde tudo é feliz e tranquilo”.

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Sonhei com cobras, MUITAS cobras, se escondendo em montes de folhas, em touceiras de grama alta, cobras de todas as cores, peçonhentas com mordidas doloridas e constritoras, com chocalhos na cauda.

 

3 de abril de 2017

Vocês não fazem ideia do que aconteceu: dormi e não lembro do que sonhei. Achei ótimo.

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O menino desenvolveu um gosto ~que nem sei de onde veio, claaaaro~ por garimpar informações sobre filmes, sabe aquela cultura de almanaque? Então. Não sei de onde veio. Mas ele armazena uma quantidade impressionante de informação totalmente inútil, se formos olhar de um ponto de vista totalmente utilitarista, que eu detesto aliás.

Ontem começou falando de Framboesa de Ouro, perguntou que filmes nunca foram indicados pra Oscar e podiam ter ganho algo e foi cair nas animações do Studio Ghibli. A favorita dele até agora é A viagem de Chihiro e ele ficou maravilhado de ver que foi a única animação do Hayao Miyazaki a ganhar um Oscar, de melhor animação em 2003. Conversamos até tarde sobre o filme.

Mais uma vez acordou minha obsessão com mundos e realidades paralelas (por que será, hm?), a associação com todos os que criaram portas secretas, passagens por dentro de árvores, portais, espelhos; guarda-roupas fundos, buracos, estações de metrô esquecidas, cabines telefônicas.

Olho pra trás e desejo que o armário sem-graça atrás de mim pudesse levar a outro lugar, outro momento, outra vida.

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2 de abril de 2017

Ontem me disseram que tenho “cara de rica”. Problematizações à parte, decidi tomar como elogio. Mesmo estando impermeável a eles e escaldada o suficiente pra não crer.

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Eu vivia com minha mãe e precisava chegar (da aula? Trabalho?) em meio a uma chuva absurda, me aprontar e sair pra um ensaio importante de ballet.  A casa ficava nos fundos de uma praça onde  o havia uma igreja sendo reformada, e o barro vermelho sendo que se formava e descia pela praça e pelos degraus dela me lembrou na hora “Crimson Peak” (“A colina escarlate”, o filme). Haviam me escolhido pra dançar e alguém me ensinava como eu devia posicionar o corpo pra ser levantada. Eu explicava que era minha despedida do ballet.

No meu desespero eu não encontrava roupas limpas pra dançar: collants velhos que eu achava que nem me caberiam mais, meias rosas imundas. Uma saia emprestada da minha irmã. No fim não achei as sapatilhas, fui sem e quando cheguei fiquei aliviada ao reparar que outras pessoas estavam descalças e desmazeladas também. O coreógrafo falava em inglês, francês, era muito prolixo. E parecia o Gérard Depardieu.