25 de março de 2018

Tantos tempos verbais cabíveis e intercambiáveis. Uma ariana metida a durona. Lágrimas com sorrisos, notas musicais sem pretensão de afinação, um mundo todo de mesas, cadeiras, garrafas & copos, pessoas desaparecendo em volta por três minutos como numa cena de filme. Um leitmotiv.

Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho
Tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado
Está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário
E se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne
Passou na novela, está no seguro, picharam no muro
Mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário
E se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos OVNIs, no Pravda, na Vodca

 

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20 de março de 2018

Acho que não suprimi nenhuma daquelas postagens do dia 20 de março do ano passado. Apenas deixei de voltar a elas, com o tempo, pra não reviver aquilo tudo.

Ontem me perguntei o que me tornei neste ano que passou. E hoje me pergunto também o que você se tornou. O que sua escolha te trouxe? Será que você chegou a questioná-la? É só curiosidade silenciosa e estéril, é mais uma pergunta retórica. Não me importa mesmo. Assim como nesse ano não me preocupei em te desejar mal, em dizer “a vida ensina” ou “o mundo dá voltas”, aquele discurso nascido da dor e do despeito, da rejeição.

Mas você me fez mais forte, de alguma forma. Passar pela situação que você me impôs me fortaleceu e solidificou, cristalizou muita coisa dentro de mim. “Emparedou” talvez fosse o verbo correto.

Tudo acontecer na véspera do meu aniversário foi mais uma coincidência, podia ter sido em qualquer dia. Mas eu tenho um histórico com vésperas de aniversário – quem sabe eu não morro num 20 de março, considerando-se neste caso a premissa (com a qual eu não concordo) “morrer é a pior coisa que pode acontecer a alguém”? É um dia como qualquer outro. É a mesma probabilidade, acho. Mas o valor simbólico, ah, esse é inegável.

Ontem voltei a ouvir uma música que você disse que adorou quando te mostrei. Levou quase um ano. Ela finalmente está vazia de qualquer outro significado, é apenas uma música que me agrada, e que cantei a plenos pulmões durante o banho.

Ainda sinto medo de passar de novo por aquelas sensações ruins – como um ano atrás sentia medo inconscientemente, sem saber que estava pra acontecer de novo. O mesmo pavor que me assaltou e me parou uma semana atrás após um sonho muito ruim. Outro 20 de março, outra vez o coração martelando o peito, o ar faltando. Outra vez o chão desaparecendo, outra vez a dor física. Só que agora sei me proteger. Agora sei a que e a quem recorrer.

Mas você me obrigou a ser melhor, sem saber. Você me forçou a ver a mim mesma e ao mundo com olhos mais duros e ao mesmo tempo mais generosos, por incrível que pareça. Se você também se fortaleceu, depois de deixar em mim a pior impressão possível, não sei dizer. Mas hoje, 20 de março, te agradeço pelo presente.

19 de março de 2018

Eu prometi que ia viver de uma forma mais simples. Mas pra chegar a essa simplicidade almejada eu preciso desconstruir um monte de padrões e condutas que perduraram por todo esse tempo. Então não sei se estou fazendo algo complicado pra simplificar.

É isso mesmo? Quando eu vou saber que cheguei lá?

 

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O que existe em um ano? Quem eu me tornei depois desses dias todos?

15 de março de 2018

Angustiada, fechava os olhos ou então os desconectava do que estivesse no entorno e imaginava a lâmina fendendo a pele uma, duas, três vezes nos braços. Nunca pensava na dor em si, mas na possibilidade da sangria tranquilizadora, que tiraria tudo o mais de perspectiva; o sangue temperado pela tristeza, pelo medo, pela ansiedade, escorrendo, pingando, levando tudo embora.

Aprendeu a escrever – o sangue transmutado no que seria, literal ou metaforicamente, a tinta da caneta, fixa no papel e fora de seu corpo, fora de sua mente.

Sangue, tinta, pensamentos.

Não funcionou. Em seus devaneios as vozes não silenciavam, agora o som da ponta da caneta ou das teclas se somava à balbúrdia de pensamentos, as linhas se sobrepunham ruidosamente. E o líquido correndo braço afora passou a ser vermelho, preto, azul, verde, roxo.

12 de março de 2018

Dormi exausta depois de um fim de semana pouco usual. Não fui trabalhar. Coloquei a vida em pausa e dormi.

Sonhei que você aparecia com uma mochila gigantesca empoleirada nos ombros e me anunciava que ia embora. Mas praonde? Você listou locais. Mas como? Mas por quê? Não quero mais ficar. Não quero mais viver aqui. Eu chorei, aquele choro que deve ter passado do onírico para o real no mesmo momento; talvez eu tenha soluçado enquanto dormia. Odeio chorar, odeio a fragilidade pressuposta no ato. As lágrimas carregando as memórias que no mundo bruxo podem ser armazenadas e depois revisitadas num artefato mágico. As minhas trariam imagens de desespero e me mostrariam apelando pro último recurso: não vai embora, eu te amo, fica comigo. Não me deixa. Você fez uma cara de espanto e por um segundo esperei que você mudasse de ideia. Esperei naquele microintervalo de tempo que você dissesse que estava só esperando por aquilo pra ficar. Minha incapacidade de fazer alguém me escolher, alguém ficar, mais uma vez evidenciada, todas as vezes em que fui deixada concentradas naquelas gotas de gosto salino.

Você tinha fogo nos olhos e eles não me enxergavam. Se você já estava saindo então nem me via mais. Eu já deixara de existir, qualquer que fosse minha forma. Chorei, implorei, argumentei. Vi o seu futuro e ele não me incluía. Dor extrema.

Acordei, lavei do rosto suor e lágrimas. Não adiantou. No calor exagerado e na dor imensa ambos continuaram a correr. Coloquei os óculos escuros, cobri os olhos – como se pudesse com isso cobrir mais uma vez a alma – e saí.

5 de março de 2018

Posso já ter contado essa história aqui ou em outro lugar.

Eu achava aquele cara lindo. Cantávamos no mesmo coral. Ele era muito simpático comigo, na realidade com todo mundo e, vou repetir, achava ele lindo. Eu tinha uns 16 anos, ele já fazia Tiro de Guerra e sabemos como meninas imbecis de 16 anos acham meninos do Tiro de Guerra um negócio assim, espetacular. Adolescentes normalmente são bem óbvios, eu era uma (agora fico tentando ser a loba diferentona, mas isso é outro assunto).

Ele dirigia um fusca velho, laranja. Que charme! E então toda vez que apontava um fusca laranja qualquer o coraçãozinho da adolescente baranguinha de óculos (é plot de teen movie sim) disparava.

Falávamos sempre sobre música. E um dia planejei uma ousadia. Deixei, coração arrebentando na garganta, uma folha de caderno com um trecho de música preso no limpador de pára-brisa. Sem assinatura, a letra mais bonita.

Dois ou três dias depois o moço bonito veio atrás de mim contar que havia encontrado o presente. “Mas vc achou ruim, foi chato?” “Não, eu adorei! Você sabe quem foi?” “Imagina, como vou saber isso?” “Nossa, será que foi a Fulana?”.

Fiquei arrasada.

Sinceramente não sei se acabei contando que fui eu a autora do bilhete. Quase dois anos depois, literalmente na véspera de ir embora da cidade para estudar fora, dei uns beijos no rapaz (ele não sabia que eu estava indo embora. Ou sabia, não lembro também. Então não sei se foi vontade ou cortesia da parte dele, mas espantosamente lembro da roupa que eu vestia) e achei de uma sem-gracice imensa.

Acho que o vi pela cidade uma vez depois. Não soube mais nada a respeito dele, não sei que fim levou. A Fulana, que era uma daquelas meninas “populares”, morreu há poucos meses com câncer, muito jovem ainda, deixando crianças pequenas e marido.

Do fusca laranja nunca mais tive notícias.

21 de janeiro de 2018

Ontem disse a um amigo que não formulei planos grandiosos pra vida. De repente viajar, conseguir morar na praia, viver melhor e de forma mais simples, depender menos de dinheiro. Ver meu filho crescer. É grandioso o bastante?

Mais tarde comecei a fazer uma lista de planos comezinhos. De vontades pequenas, que podem ser satisfeitas em curto espaço de tempo. Ei-las:

– ser mais disciplinada com a casa é a rotina;

– voltar a praticar esportes com prazer e regularidade;

– ir mais à praia;

– me desarmar um pouco frente às pessoas;

– comer melhor;

– fazer um ensaio fotográfico sem roupa (isso mesmo. Não aqueles tipo boudoir, tem nada a ver comigo. Sem julgamentos, mas não é pra mim);

– falar menos, observar e escrever mais;

– diferenciar mais o que quero do que o que se espera de mim;

– rir e dançar mais;

– fazer uma sessão de massagem tântrica;

– voltar a usar anéis;

– largar de mendigar atenção;

– meditar com regularidade;

– fotografar o mundo à minha volta, registrando o que me dá vontade (quem sabe uma câmera legal?).

Acho que tá bonzinho.

Você tem planinhos pra esse ano? Quer me contar?