12 de março de 2018

Dormi exausta depois de um fim de semana pouco usual. Não fui trabalhar. Coloquei a vida em pausa e dormi.

Sonhei que você aparecia com uma mochila gigantesca empoleirada nos ombros e me anunciava que ia embora. Mas praonde? Você listou locais. Mas como? Mas por quê? Não quero mais ficar. Não quero mais viver aqui. Eu chorei, aquele choro que deve ter passado do onírico para o real no mesmo momento; talvez eu tenha soluçado enquanto dormia. Odeio chorar, odeio a fragilidade pressuposta no ato. As lágrimas carregando as memórias que no mundo bruxo podem ser armazenadas e depois revisitadas num artefato mágico. As minhas trariam imagens de desespero e me mostrariam apelando pro último recurso: não vai embora, eu te amo, fica comigo. Não me deixa. Você fez uma cara de espanto e por um segundo esperei que você mudasse de ideia. Esperei naquele microintervalo de tempo que você dissesse que estava só esperando por aquilo pra ficar. Minha incapacidade de fazer alguém me escolher, alguém ficar, mais uma vez evidenciada, todas as vezes em que fui deixada concentradas naquelas gotas de gosto salino.

Você tinha fogo nos olhos e eles não me enxergavam. Se você já estava saindo então nem me via mais. Eu já deixara de existir, qualquer que fosse minha forma. Chorei, implorei, argumentei. Vi o seu futuro e ele não me incluía. Dor extrema.

Acordei, lavei do rosto suor e lágrimas. Não adiantou. No calor exagerado e na dor imensa ambos continuaram a correr. Coloquei os óculos escuros, cobri os olhos – como se pudesse com isso cobrir mais uma vez a alma – e saí.

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5 de março de 2018

Posso já ter contado essa história aqui ou em outro lugar.

Eu achava aquele cara lindo. Cantávamos no mesmo coral. Ele era muito simpático comigo, na realidade com todo mundo e, vou repetir, achava ele lindo. Eu tinha uns 16 anos, ele já fazia Tiro de Guerra e sabemos como meninas imbecis de 16 anos acham meninos do Tiro de Guerra um negócio assim, espetacular. Adolescentes normalmente são bem óbvios, eu era uma (agora fico tentando ser a loba diferentona, mas isso é outro assunto).

Ele dirigia um fusca velho, laranja. Que charme! E então toda vez que apontava um fusca laranja qualquer o coraçãozinho da adolescente baranguinha de óculos (é plot de teen movie sim) disparava.

Falávamos sempre sobre música. E um dia planejei uma ousadia. Deixei, coração arrebentando na garganta, uma folha de caderno com um trecho de música preso no limpador de pára-brisa. Sem assinatura, a letra mais bonita.

Dois ou três dias depois o moço bonito veio atrás de mim contar que havia encontrado o presente. “Mas vc achou ruim, foi chato?” “Não, eu adorei! Você sabe quem foi?” “Imagina, como vou saber isso?” “Nossa, será que foi a Fulana?”.

Fiquei arrasada.

Sinceramente não sei se acabei contando que fui eu a autora do bilhete. Quase dois anos depois, literalmente na véspera de ir embora da cidade para estudar fora, dei uns beijos no rapaz (ele não sabia que eu estava indo embora. Ou sabia, não lembro também. Então não sei se foi vontade ou cortesia da parte dele, mas espantosamente lembro da roupa que eu vestia) e achei de uma sem-gracice imensa.

Acho que o vi pela cidade uma vez depois. Não soube mais nada a respeito dele, não sei que fim levou. A Fulana, que era uma daquelas meninas “populares”, morreu há poucos meses com câncer, muito jovem ainda, deixando crianças pequenas e marido.

Do fusca laranja nunca mais tive notícias.

21 de janeiro de 2018

Ontem disse a um amigo que não formulei planos grandiosos pra vida. De repente viajar, conseguir morar na praia, viver melhor e de forma mais simples, depender menos de dinheiro. Ver meu filho crescer. É grandioso o bastante?

Mais tarde comecei a fazer uma lista de planos comezinhos. De vontades pequenas, que podem ser satisfeitas em curto espaço de tempo. Ei-las:

– ser mais disciplinada com a casa é a rotina;

– voltar a praticar esportes com prazer e regularidade;

– ir mais à praia;

– me desarmar um pouco frente às pessoas;

– comer melhor;

– fazer um ensaio fotográfico sem roupa (isso mesmo. Não aqueles tipo boudoir, tem nada a ver comigo. Sem julgamentos, mas não é pra mim);

– falar menos, observar e escrever mais;

– diferenciar mais o que quero do que o que se espera de mim;

– rir e dançar mais;

– fazer uma sessão de massagem tântrica;

– voltar a usar anéis;

– largar de mendigar atenção;

– meditar com regularidade;

– fotografar o mundo à minha volta, registrando o que me dá vontade (quem sabe uma câmera legal?).

Acho que tá bonzinho.

Você tem planinhos pra esse ano? Quer me contar?

15 de janeiro de 2018

A visão do casal de mãos dadas em meio ao movimento frenético da estação de metrô me deixou nostálgica.

Não entendi muito bem o sentimento. Primeiro pensei que estar ali naquele horário em meio a tantas pessoas me remetida a todas as vezes em que cheguei à cidade e fui esperar alguém ou era eu mesma esperada. Encontros felizes. Depois pensei também que a visão do casal contrastava justamente com o contrário, com tudo o que foi pensado e irrealizado.

Uma hora depois, acomodada em outro ônibus, concluí que me atraiu na cena sobretudo a ideia de que aquelas duas pessoas conversando e sorrindo enquanto andavam sem pressa formavam uma unidade à parte naquele caos aparente: uma bolha que o barulho intenso e a confusão não conseguiam penetrar.

11 de janeiro de 2018

Estou em férias. Tempo demais pra pensar. E fiquei agora matutando sobre como é mais difícil do que parece o tão falado exercício da leveza.

O senso comum faz parecer que é só acordar, tomar banho, vestir roupas em tons claros, tomar leite desnatado com frutas e sair por aí sorrindo e cantarolando. É como se você virasse um Carefree ambulante, sempre leve, fina e fresca (espero que a referência não seja retrô demais. Percebi agora que nem sei se ainda existem Carefree e propaganda dele na televisão).

Mas é mesmo um exercício. Que você vai ter que fazer apesar de todas as intempéries. Como ir correr: vai com sol, vai com garoa, vai no final de semana. Acrescenta mais quilometragem aos poucos, melhora o ritmo paulatinamente.

Pra algumas coisas está tranquilo tocar essa programação mental toda. Pra outras acabo precisando usar técnicas mais bruscas, por assim dizer: como o adulto que dá tapa na mão da criança que vai enfiar o dedo na tomada. Refrain. Refrain. Acalma a mente. Sai do modo catástrofe. Você não quer parar numa maca de hospital novamente. É tudo apego. É tudo narcisismo. Você é melhor que isso. Você não está no controle.

Ainda assim os insights inconvenientes, os diálogos mentais dolorosos. Ou apenas impossíveis e que vão incomodar e machucar por sua natureza irrealizável.

Feche os olhos. Respire. Nada está sob controle.

 

 

 

10 de janeiro de 2018

É uma pena mas assim como besteiras e negatividade precisam ser filtradas, elogios também. Elofensas, condescendência, mentira, chantagem. Elogios se degradam em algumas bocas assim como metais se oxidam em contato com ar e umidade (acho ACHO que a comparação ficou ruim, diz aí). E a pessoa esperta vai saber usar o elogio certo. Tem um ou dois que são os clássicos no meu caso e aprendi da pior forma a não acreditar muito nas pessoas: minha posição natural é agora o pé atrás.

Mas um dia, faz tempo, o imprevisto e inédito: “você me traz paz, você me faz sentir tranquilidade. Eu durmo melhor com você do lado.”

Descontados contexto e fonte do elogio, eu quero acreditar, sabe? Não é questão de se ver pelos olhos alheios e precisar disso pra viver (meta é eliminar totalmente esse sentimento). Mas às vezes faz um pouquinho de falta. Acho que isso, isoladamente, não me torna alguém dependente emocional e carente, hm?

2 de janeiro de 2018

Acordei cedo como não fazia há dez dias pra me despedir das visitas. A vista tão linda está coberta por uma camada consistente de neblina e chove a cântaros.

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Eu percorria uma das cidades que amo, reconhecível apesar da geografia toda embaralhada comum aos sonhos. Passava seguidamente por dentro de lojas, atravessava ruas sem olhar, corria ladeiras abaixo e repetia as voltas, como nos filmes em que as coisas se repetem e se modificam por uma parada a mais num semáforo. Encontrava uma manifestação desordenada e barulhenta, pessoas conhecidas a quem contava que minha mãe vai se aposentar, e me livrava do tumulto correndo rua abaixo, em direção ao outro lado da avenida.

Cruzei uma, duas, três paralelas à avenida, ladeira acima, e na quadra de baixo entrevi o movimento do seu quarteirão. Você passou com um cachorro na coleira, me viu e veio falar comigo. Eu usava uma espécie de roupão azul marinho por cima da roupa.

Com ar sarcástico você chegava perto do meu rosto (o cachorro já sumira da cena) e dizia que eu não conseguia mesmo parar de pensar em você, lá estava eu na sua esquina. Não lembro o que respondi. Nossas bocas quase se tocavam, como naquele milissegundo delicioso de desejo e expectativa que antecede um beijo. E você me beijou. Ignoramos a rua, as pessoas, conversamos falando baixinho, rostos quase grudados, ao pé do ouvido. Confissões e vontades.

Mágica. Devo ter acordado sorrindo, mesmo com o cachorro me cutucando com o focinho gelado e pedindo pra sair pra varanda. Vou considerar esse sonho um presente seu de Ano Novo e de despedida.